Portaria n.º 490/70 — Manda aplicar, nas escolas de habilitação de professores de posto escolar das províncias ultramarinas, os programas do…

Tipo Portaria
Publicação 1970-10-03
Estado Em vigor
Texto Tal como publicado
Ministério Ministério do Ultramar - Direcção-Geral de Educação
Fonte DRE
artigos Não indexado

Este é o ato tal como foi publicado. As alterações posteriores não estão incorporadas no texto: cada uma é um ato autónomo neste repositório e uma entrada no historial desta lei.

Manda aplicar, nas escolas de habilitação de professores de posto escolar das províncias ultramarinas, os programas do ciclo preparatório do ensino secundário, com as alterações deles constantes

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Primeira ideia de função como correspondência unívoca, especialmente entre conjuntos de grandezas. Gráficos cartesianos.

3.

Proporcionalidade inversa; escolha de um primeiro exemplo simples e rigoroso, tal como o seguinte: considerando o conjunto de todos os rectângulos, cuja área é, por exemplo, 4 cm2, tem-se uma correspondência biunívoca entre os comprimentos dos rectângulos e as respectivas larguras, de tal modo que o produto dos valores correspondentes é constante. A construção de uma tabela e de um gráfico ajudará a ter uma ideia mais precisa deste novo tipo de função (proporcionalidade inversa).

As expressões «inversamente proporcional a», «variar na razão inversa de» e «proporcionalidade inversa» tornam conveniente que, em certos casos, para evitar confusões, se diga «directamente proporcional», «variar na razão directa de» e «proporcionalidade directa», onde antes se dizia, respectivamente, «proporcional a», «variar proporcionalmente a» e «proporcionalidade» sem mais complementos.

Os exemplos da física serão de apresentar (com as devidas cautelas), atendendo a que é neste campo que a linguagem da proporcionalidade terá de vir a ser usada com maior frequência: variação do volume de um gás com a pressão, princípio das alavancas, etc. A resolução de problemas de proporcionalidade inversa assentará sempre na determinação da constante de proporcionalidade, bem como na resolução de equações de tipo já conhecido (como no caso da proporcionalidade directa). Um tipo de problema que poderá interessar um bom aluno na época actual é o seguinte:

Sabe-se que o peso de um corpo é inversamente proporcional ao quadrado da sua distância ao centro da Terra e que o raio da Terra mede cerca de 6400 km. Conhecido o peso de um astronauta à superfície da Terra (por exemplo, 70 kg), calcular o seu peso a uma dada altitude (por exemplo, 2000 km), quando inicia o regresso à Terra (supondo que é nula a força centrífuga).

Poderá também ser atraente o exemplo da viagem imaginada por Júlio Verne no livro Da Terra à Lua.

Proporcionalidade composta. É ainda a geometria que deverá fornecer os primeiros exemplos, ao mesmo tempo simples e rigorosos, de proporcionalidade composta: a área de um triângulo é directamente proporcional à base e à altura do triângulo (constante de proporcionalidade: 1/2); o volume de um cilindro é directamente proporcional ao quadrado do raio da base e à altura do cilindro (constante de proporcionalidade: (pi)); etc. Trata-se agora de funções de duas variáveis, de três variáveis (casos dos juros simples), etc.

Como fecho, poderá fazer-se referência à lei da gravitação universal e à sua tradução simbólica, terminando com uma notícia histórica sobre Newton e sobre a repercussão das suas descobertas nas investigações espaciais.

Educação Musical

Introdução

Finalidade e princípios fundamentais

A música é chamada a colaborar no plano de educação do curso, dentro de uma ideia de formação integral do aluno.

Esta disciplina, integrada já nos programas do ensino primário, continuará agora a aproveitar os valores específicos e permanentes da música como um dos meios poderosos de formação da personalidade e de elevação espiritual do aluno, introduzindo-o, todavia, em novos estádios de desenvolvimento.

No curso deve procurar-se que o aluno obtenha consciência mais perfeita dos fenómenos musicais já experimentados e vividos, e também que adquira alguns conhecimentos teóricos, sem deixar de se exigir a comparticipação das suas forças dinâmicas sensoriais e afectivas, num sentido de maior harmonização e equilíbrio humano.

Determinada, assim, a finalidade principal desta disciplina e a razão por que se intitula Educação Musical (e não ensino de música), importa estabelecer princípios gerais e os meios específicos a adoptar para atingir esta e outras finalidades mais imediatas, inerentes à mesma disciplina, e que adiante serão indicadas.

Largas experiências e verificações feitas sobre as relações psicológicas existentes entre os elementos fundamentais da música e os da natureza humana demonstraram, de modo insofismável, a influência da música na educação e levaram a estabelecer princípios gerais para a disciplina de Educação Musical.

O valor intrínseco destes elementos musicais - elementos de vida e não só materiais, como por vezes são concebidos - impõe que a sua vivência se prolongue necessàriamente através de todos os graus de desenvolvimento. Por esta razão, o programa do curso continuará a educação rítmica e a educação auditiva, procurando para cada um dos elementos - ritmo, melodia e harmonia - uma compreensão maior, indispensável à elevação do aluno a novos aspectos da sensibilidade musical.

O curso é o momento próprio para fazer acompanhar da escrita e da leitura os exercícios destinados ao desenvolvimento rítmico e auditivo, sem esquecer, todavia, que só a música vivida e praticada faz desejar o solfejo, e que não é o solfejo que desperta o amor pela música.

O canto, considerado um fenómeno natural, começa neste momento também a impor novas exigências quanto a reportório, educação estética e higiene vocal, de acordo com a idade, o aumento de conhecimentos e de sensibilidade de quem o pratica.

Programa

Solfejo

Educação rítmica (prática)

Canções de valor rítmico.

Reprodução de ritmos livres.

Batimento dos quatro modos rítmicos.

Realização de compassos simples e compostos, com marcação das subdivisões binária e ternária.

Improvisação livre; em compasso; com quadratura.

Ritmo da palavra.

Elementos de expressão: agógicos (andamento); dinâmicos (intensidade); plásticos (carácter).

Educação auditiva (prática)

Canções.

Sentido do movimento sonoro.

Reprodução vocal de motivos melódicos.

Improvisação melódica.

Entoação da escala diatónica.

Ordenação de sons e nomes de notas.

Reconhecimento de intervalos melódicos.

Prática e reconhecimento dos modos maior e menor.

Reconhecimento de sons simultâneos.

Reconhecimento dos acordes maior e menor e reprodução dos sons que os constituem.

Escrita e leitura

Pauta de cinco linhas.

Sentido da posição das notas na pauta.

Sentido do movimento sonoro na escrita.

Sinais representativos de altura e duração (notas, figuras rítmicas e respectivas pausas. Ponto de aumento; ligadura de valor).

([ver documento original](https://files.diariodarepublica.pt/1s/1970/10/23001/00010042.pdf))

Fórmulas rítmicas elementares.

Leituras e ditados simples.

Canto coral

Reportório

Cânone (duas, três e quatro vezes).

Melodias populares portuguesas harmonizadas.

Música portuguesa clássica.

Melodias populares locais.

Educação estética

Interpretação (relações entre texto e música; fraseado).

Expressão.

Audição comentada de obras musicais.

Educação vocal

Respiração.

Vocalização.

Dicção (emissão e articulação).

Unificação das vozes vibrato e timbre).

Instruções

As rubricas do programa e respectivas alíneas sistematizam, como se verifica, uma prática musical viva, embora também imponham tomada de consciência dos fenómenos musicais que convêm à educação musical tida por conveniente para este curso.

Cada exercício na sua realização tem em vista um significado e um valor pedagógicos próprios, que se verificam independentemente da compreensão que desse significado e valor possa ter o aluno. O professor, como é óbvio, não pode ignorá-los, nem sequer desinteressar-se deles.

Por esta razão, são dadas indicações directas sobre cada uma das rubricas e respectivas alíneas.

A ordem estabelecida na apresentação do programa não representa uma hierarquia quanto ao valor musical dos elementos. Apenas indica a prioridade que deve dar-se a uns e a primazia a dar a outros, segundo a finalidade a que se destinam enquanto matéria de exercícios.

Quando se propõe uma educação musical que considera os elementos musicais em estreita correspondência com as faculdades humanas e quando se sabe que aqueles elementos podem auxiliar o desenvolvimento destas mesmas faculdades, deve-se distinguir - também na prática o valor simultâneamente musical e psicológico de cada um deles em função dos seus fins pedagógicos.

Assim, ainda que a melodia tenha a primazia, por ser a característica principal da música, deve dar-se muita vez a prioridade ao ritmo, quando se pretende desenvolver ou equilibrar o dinamismo corporal, quando se quer despertar a imaginação motriz ou ainda adquirir e desenvolver o sentido do ritmo.

E nunca será demasiada a importância a dar ao ritmo, que, nas suas manifestações, é uma lei fundamental do universo, verificada e realizada plenamente no movimento.

Para além disto, deve-se ter em conta que o valor mais alto do ritmo musical está no seu poder de síntese, ordenador de som e de todos os valores plásticos, agógicos e dinâmicos.

É também evidente a importância dada à canção neste programa.

Pelo seu valor real de síntese, a canção torna-se indispensável a uma profunda acção pedagógica. Mas, para tanto, será necessário que se considere e aproveite cada um dos seus elementos em ordem à finalidade a atingir.

Que a selecção atenda cuidadosamente à beleza musical das canções, é um ponto que não se põe em discussão. Há, todavia, outros valores de ordem pedagógica que obrigam a distingui-las e a catalogá-las segundo o fim a que se destinam, o que não invalida a afirmação de que toda e qualquer canção, criteriosamente escolhida pela sua beleza, encerra já em si um valor inestimável.

Notas explicativas

Educação rítmica

Canções de valor rítmico

São as que, pela sua estrutura, mais se prestam a marcar o ritmo, os tempos, o 1.º tempo do compasso e a subdivisão dos tempos; as que mais se prestam à marcação dos diversos compassos; as que contêm as figuras rítmicas a utilizar na escrita e na leitura.

Reprodução de ritmos livres

Consiste na imitação de ritmos dados.

Este exercício pede a atenção e a memória rítmica do aluno.

Exige também do professor:

a)

Clareza e precisão dos ritmos a reproduzir;

b)

Respeito pelos limites da memória e de grau de desenvolvimento dos alunos, a fim de evitar dificuldades insuperáveis com motivos extemporâneos.

Batimento dos quatro modos rítmicos

A nova fase do desenvolvimento deste exercício consiste em obter maior simultaneidade na realização, quer colectiva, quer individual, isto é: o mesmo aluno pode bater com cada mão um modo diferente; pode andar (marcando os tempos musicais) e bater a subdivisão cantando; pode contar os tempos e bater o ritmo imaginando-o; pode correr (marcando assim a subdivisão), bater o compasso com os braços e cantar; etc.

Assim, os modos rítmicos podem ser marcados pelo mesmo aluno.

Estes quatro modos podem ser marcados em instrumentos de percussão por um ou vários alunos simultâneamente.

Realização dos compassos simples e compostos

Esta alínea está directamente relacionada com a anterior.

O seu desenvolvimento adquire-se em grande parte com a prática das canções criteriosamente escolhidas para esse fim.

Outro exercício também necessário é a marcação do compasso feita simultâneamente com a subdivisão dos tempos.

Improvisação livre; em compasso; com quadratura

Consiste esta improvisação no aproveitamento e desenvolvimento da imaginação rítmica do aluno, num exercício de dinamismo e coordenação motriz.

Este exercício exige:

a)

Poder de exteriorização;

b)

Sentido da força tética ou ársica dos vários tempos, no caso de improvisação em compasso,

c)

Consciência das estruturas musicais elementares, das quais a mais natural é a quadratura.

Ritmo da palavra

Consiste este exercício em bater a forma rítmica de um inciso, de uma frase ou de uma lengalenga, com o cuidado de não alterar a acentuação nem o ritmo das palavras.

Elementos de expressão

Já realizados com exercícios propostos para esse fim, no ensino primário, em batimentos e outras formas independentes da canção, deverão ser agora mais directamente aplicados na realização das canções e dos solfejos escolhidos cuidadosamente para este exercício.

Educação auditiva

Canções pedagógicas

São: as canções de duas a cinco notas; as de intervalos (cujas notas de entrada caracterizam um determinado intervalo); as de modo maior e menor; as de acordes (as que começam por um acorde característico).

Sentido do movimento sonoro

Preparado pela educação sensorial, supõe exercício de atenção para ouvir e reconhecer o movimento de altura dos sons, princípio de melodia. Trata-se aqui de graus conjuntos, e não de som em movimento contínuo, como se fez nas classes elementares do ensino primário.

Reprodução de motivos melódicos

Consiste na imitação de motivos dados. Exige exercício de atenção e de memória melódica do aluno. Estes motivos exigem um mínimo de forma rítmica e de sentido musical.

Improvisação melódica

Ver o que se refere a improvisação rítmica, que se baseia nos mesmos princípios.

Além disto, ter em conta que esta improvisação deve ser feita, de princípio, sem o nome das notas.

Ordenação de sons e de nomes de notas

Consiste em entoar ou cantar com o nome das notas, por graus conjuntos no âmbito da escala ditónica, mas livremente em movimentos ascendentes e descendentes. Este exercício pode também obedecer a um motivo dado.

Reconhecimento dos intervalos

Este exercício pode relacionar-se com o das canções de intervalos; no entanto, é por ele que o aluno adquire o sentido quantitativo e qualitativo dos mesmos intervalos, o que não acontece com as canções.

Reconhecimento dos modos maior e menor

As canções são ainda a melhor forma de fazer sentir e distinguir os modos maior e menor.

Reconhecimento de sons simultâneos

Este exercício consiste em fazer ouvir simultâneamente dois, três ou quatro sons, e em fazer reproduzir vocalmente esses sons, ascendente ou descendentemente, sem o nome das notas.

Reconhecimento dos acordes maior e menor

Este exercício, já preparado pela canção para os modos maior e menor, consiste em fazer distinguir a natureza dos acordes e classificá-los pela sensibilidade.

Escrita e leitura

Pauta simples de cinco linhas

A pauta simples serve a leitura sem clave (relatividade) e a leitura com clave (absoluto). Esta última traz consigo a necessidade de conhecer a função das claves integradas na pauta dupla:

([ver documento original](https://files.diariodarepublica.pt/1s/1970/10/23001/00010042.pdf))

No entanto, o exercício de leitura nesta pauta não se impõe. Ler-se-á, portanto, na pauta simples pelos sistemas de relatividade e absoluto - como já acima dissemos.

Sentido de posição das notas da pauta (linhas e espaços)

Adquire-se por meio de exercícios meramente visuais, cujo objectivo é a aquisição dos reflexos rápidos necessários à leitura.

Sentido do movimento sonoro na escrita (subir, descer, permanecer, saltar)

Exercício de natureza visual, a que deve ligar-se o sentido auditivo do movimento sonoro.

Sinais representativos - Fórmulas rítmicas elementares

Leituras e ditados simples

A prática indicada por estas alíneas deve ter sido devidamente preparada pelos exercícios anteriores, podendo seguir-se agora a prática tradicional.

Trabalhos Manuais

1.

Seria ocioso insistir nas vantagens da inclusão desta disciplina no currículo de um ensino activo. Ela constitui parte importante dos meios utilizados com mira nas finalidades gerais do curso. Importará apenas deixar aqui consignadas algumas das finalidades específicas a considerar.

A palavra, o desenho e o trabalho manual são formas de expressão natural e constituem, no seu todo, a linguagem do aluno; mobilizam as suas faculdades de memória, de intuição e de acção, num conjunto activo que se interpenetra e se completa em cada aspecto do comportamento.

É vital a importância do trabalho na aquisição de conhecimentos, dado que esta depende de elaborações e assimilações que não podem realizar-se sem esforço pessoal e sem actividade do educando. De facto, o aluno não possui conhecimento que ele próprio não tenha criado.

Consideraremos então o trabalho manual como forma tridimensional da expressão dos conhecimentos, espécie de «modelação» destes, com a interpretação pessoal que revela a intimidade psíquica do «modelador».

O valor didáctico da actividade manual corresponderá ao aproveitamento de um circuito fechado de recções psicomotoras. O espírito conduz a mão na obtenção de um resultado tangível; a linha de acção impõe, portanto, a elaboração de uma série de regras normativas que o maior ou menor êxito na execução verificará ou fará corrigir. Essa verificação, ou a correcção necessária, correspondem a processos educativos, quer do espírito, quer do sistema motriz.

Deste modo, a estimulação das destrezas manuais está inteiramente associada ao aparecimento e ao aperfeiçoamento das destrezas espirituais do aluno, cujo psiquismo está em plena evolução, para aprender a pensar aprendendo a fazer.

Para que aquela estimulação produza efeitos verdadeiramente educativos é, porém, necessário que a obra a realizar corresponda a um interesse real do executante.

O interesse pelo trabalho corresponderá a qualquer utilidade deste, muito embora tal utilidade possa não representar um valor económico; o essencial é que ela seja reconhecida e sentida pelo aluno preferìvelmente por sua própria sugestão. Assim, não é de aconselhar a repetição de trabalhos que só sirvam a escola sem interessarem senão medìocremente o aluno; mas este pode e deve intervir na obtenção de certos meios de ensino, relacionados com outras disciplinas, onde cabe ao respectivo professor estimular os educandos àquela «febre» de produção que os levará a desejar fazer pelas suas mãos o modelo, o dispositivo experimental, o maquinismo ou outros objectos de que haja necessidade.

Ficará assim assegurado, do ponto de vista escolar, que os trabalhos manuais permitam a concretização do ensino e constituam um meio de ilustração e de demonstração para todas as disciplinas, sendo, como são, um complemento indispensável do processo mental do aluno. Algumas matérias beneficiarão especialmente do aparo proveniente da aplicação concreta que corrobora e completa a explicação teórica.

2.

O domínio a obter dos materiais «de construção» depende naturalmente da resistência destes. Teremos então como objecto das actividades escolares, sucessivamente:

a)

Os materiais plásticos, como o barro, a cera, a plasticina, etc.;

b)

Os materiais semiplásticos, como o papel, o cartão, os tecidos, os couros, os vimes, etc.;

c)

Os materiais rígidos fàcilmente cortáveis, como a polpa da batata, certas madeiras, a cortiça, o arame, etc.;

d)

Os materiais rígidos difìcilmente cortáveis, como quase todas as madeiras e os metais de uso corrente.

A prática dos trabalhos manuais exige a utilização de ferramentas e, para alguns materiais, de certas máquinas. Umas e outras são de uso corrente, e há vantagens em que o aluno se familiarize com elas. De resto, o prestígio das máquinas exerce-se de tal maneira no espírito dos jovens que é com alegria, interesse e curiosidade que tomam contacto com elas.

Há que começar pelo mais simples, indo da lima e do serrote até ao pequeno engenho de furar, como da agulha e do bastidor até à máquina de costura. Não se irá tão longe que o aluno ultrapasse o conhecimento daquelas máquinas muito modestas que permitem diminuir o tempo e o esforço do trabalho e dar a este um acabamento que satisfaça o executante.

É natural que a escassez do tempo e de meios apropriados reduzam a mero apontamento os exercícios que requerem o uso de máquinas; ficarão, no entanto, como registo do que seria desejável e se pretende que alguma vez venha a ser realidade.

A utilização de ferramentas ou de máquinas deve ser orientada no sentido de dar aos trabalhos manuais conteúdo educativo, onde sobreleve o valor do exercício pessoal, sem menosprezo das possibilidades de perfeição que a técnica actual nos oferece.

Na mesma finalidade educativa se deve incluir o conhecimento prático das indispensáveis regras de segurança.

3.

Os trabalhos com materiais plásticos constituem realmente um exercício de «modelação»; dão aos alunos uma percepção exacta dos volumes e das formas e correspondem geralmente a ideias cuja construção não é fàcilmente traduzível num desenho. Aliás, realizando-se esses trabalhos na fase inicial do curso, ainda os alunos não têm adquirido uma técnica suficiente de desenho para se conseguir um planeamento capaz baseado nesses desenhos.

Os materiais semiplásticos servem de exercício associável a desenhos traçados em regra sobre o próprio material, constituindo um processo excelente de adestrar as mãos e de aplicar pràticamente o que se aprendeu no Desenho ou na Matemática.

Os exercícios com materiais rígidos ganham em serem planeados com base em desenhos de construção, designação porventura ambiciosa para os simples «esboços» executados pelos alunos com indicação das medidas, como preparação do objectivo em vista, antes da sua realização material.

Nem sequer se poderá esperar dos executantes, durante quase todo o 1.º ano, que consigam exprimir, por meio de um desenho suficientemente explicativo, as, ideias que pretendem realizar. Sòmente no 2.º e 3.º anos, e não em todo ele, será de exigir uma apresentação mais adequada do plano de trabalho.

As deficiências merecerão cuidadosa atenção da parte do agente de ensino, que fará o possível por ajudar o aluno a concretizar a sua ideia, mesmo que tenha de ser ele quem acabe por desenhar o esboço.

Às vezes o interesse dos alunos por coisas complicadas, que ficam fora do alcance das suas possibilidades de construção, dificulta de certo modo a tarefa dos mestres, que não devem, por isso, encorajar ideias que conduzam a realizações impraticáveis. Há, pois, necessidade de impor um certo sentido das realidades, para evitar perdas de tempo e fracassos que redundariam na criação de complexos difíceis de vencer.

De uma maneira geral, a construção implicará um projecto, de um aluno ou de um grupo de alunos, muito embora o seu delineamento possa ser deficiente durante a primeira parte do curso.

4.

Na fase de execução, sem prejuízo da iniciativa do aluno, o mestre intervirá sempre que necessário no sentido de obter certo adestramento funcional, específico desta actividade. Já o Ministério da Educação britânico diz nas suas instruções didácticas: «Nem sempre a chamada expressão livre significa que os alunos façam o que querem, sem guia ou sugestão alguma»; e o grande pedagogo da escola activa Kerschensteiner escreveu, baseado em experiências realizadas com alunos de várias idades: «A exigência de elevada perfeição num exercício não prejudica em nada a satisfação pelo trabalho executado, antes, pelo contrário, fá-la aumentar em proporções tais que nos autorizam a dizer que constitui um caminho pelo qual se pode enveredar desde o início dos trabalhos escolares.»

Queremos com estas citações indicar que se deve, desde o princípio, incutir no espírito do aluno a ideia de que o seu trabalho ganha em receber um acabamento digno e suficiente cuja perfeição dependerá da altura do curso, do género de material utilizado e das possibilidades do aluno.

O trabalho manual pretende instruir, não apenas «divertindo» os alunos; há que estimulá-los a vencer as dificuldades, a desenvolver a vontade e a ter a coragem de, reconhecidos os erros, retomarem a tarefa, numa ambição honesta que visa o valor fecundo do trabalho.

Em determinada altura, para conseguir a execução de alguns projectos haverá, portanto, de incluir no decorrer do trabalho certos exercícios de adestramento, como o serrar, o aplainar e o limar, procurando que o aluno aprenda a obter um melhor rendimento do esforço físico produzido. Inclui-se nestes exercícios alguma metodização de atitudes, ensinando-se qual deve ser a posição correcta do corpo, qual o grau de pressão a efectuar com a mão ou com a ferramenta, como se deve seguir com a vista a saída dos desperdícios, quais os cuidados a ter para evitar um acidente, etc. Em suma: acaba-se de conseguir processos úteis e higiénicos para trabalhar.

Não será de mais esclarecer que este esboço de metodização exclui a repetição excessiva dos mesmos movimentos, com um sentido que tivesse já o carácter de adestramento profissional. Evitemos então o cansaço do executante e a perda de interesse que só prejudicam a finalidade em vista; se o aluno se mostra decididamente inábil em certas operações (o que se anotará na respectiva ficha individual) tentar-se-ão outros géneros de exercícios.

A finalidade social dos trabalhos manuais será fomentada e esclarecida pela realização de tarefas por equipas; o projecto e a sua execução serão objecto de uma cooperação bem entendida, em que o professor intervém sòmente para corrigir a distribuição dos encargos individuais se se verificar (como às vezes sucede) que algum ou alguns abusam em seu proveito, do esforço dos mais entusiastas.

5.

Se não houvesse outras diferenças a considerar, bastava a diversidade de alguns dos materiais de que se dispõe para que os exercícios de trabalhos manuais apresentem sensíveis variações regionais. Na verdade, os próprios motivos podem apresentar aspectos de índole local, buscando remota ou directa inspiração em assuntos da economia do meio e do seu folclore.

Assim, deixemos que os alunos e as alunas tomem íntimo contacto com os aspectos típicos das pequenas indústrias e curiosidades locais. Aproveitemos, em cada caso, o sentido estético, o valor espiritual e as motivações económicas que as pequenas ou grandes produções regionais possam sugerir ou fornecer.

As mesmas razões aconselham a adequação dos trabalhos de jardinagem ou hortícolas às condições e interesses locais.

6.

É na disciplina de Trabalhos Manuais que mais se fazem sentir as diferenças de interesses, de preferências e de determinações sociais que caracterizam os dois sexos.

Deste modo, nos programas, à parte uma série de exercícios iniciais e os trabalhos de jardinagem e horticultura, apresentam-se nìtidamente os trabalhos que são próprios do sexo feminino.

7.

O apelo aos diferentes aspectos da actividade motriz dos alunos fornecerá aos serviços de orientação escolar dados de suma importância.

Os gestos e as preferências, o grau de capacidade e de aptidões demonstrado, as variações de atitude, em reacções individuais e perante arranjos colectivos, enfim, todos os elementos de «comportamento» do aluno em face da tarefa a realizar serão cuidadosamente anotados na sua ficha pessoal.

8.

As sessões de Trabalhos Manuais incluídas no currículo do curso têm a duração de 110 minutos cada uma. Sendo necessário ocupar alguns minutos com a arrumação dos apetrechos, ferramentas e outro material utilizado, terão os alunos cerca de 100 minutos de exercício útil - o que está muito longe de se tornar fatigante para os executantes.

O ensino dos trabalhos manuais, eminentemente prático e individual, não deve incidir sobre a totalidade dos alunos que constituem as turmas normais das outras disciplinas. Será conveniente a divisão dessas turmas em turnos de trabalho que não excedam dezasseis alunos cada um; o serviço dos professores de Trabalhos Manuais organizar-se-á em conformidade com esta divisão.

O apetrechamento de cada oficina de trabalhos manuais será, portanto, condicionado às necessidades correspondentes ao exercício de dezasseis alunos; mas, para não multiplicar o número de alguns apetrechos de menos uso, é de admitir a instalação, na mesma oficina, dos móveis necessários para o trabalho simultâneo de dois turnos, entregues a dois agentes de ensino.

9.

Os progressos que se seguem não pretendem representar listas de trabalhos a realizar exactamente pela ordem por que estão indicados. Trata-se de sugestões, que serão completadas ou modificadas de acordo com os interesses em causa, tendo em atenção as influências do meio e do tempo, dentro daquela motivação geral concertada para todas as actividades de cada turma.

Esquematização programática

(Sexo masculino)

1.º e 2.º anos

Trabalhos iniciais:

Exercícios de recorte e colagem em papel e cartolina para averiguação da capacidade dos alunos com vista à execução dos exercícios ulteriores.

Confecção de embrulhos e de caixas de cartolina ou cartão.

Modelação: exercícios de criação espontânea, em que se dá ao aluno um pedaço de matéria plástica para amassar e modelar à sua fantasia. Seguem-se trabalhos em que se mostra como se modelam formas elementares de objectos simples ou de elementos naturais. Os exercícios executam-se numa sessão e não é necessária a preocupação de conservar os trabalhos feitos. Podem, no entanto, ser pintados com tintas adequadas ou até cozidos.

Capas de cadernos e de livros. Confecção de livros.

Arranjo e reparações com papel, cartolina ou cartão.

Gravações em linóleo, em colaboração com a disciplina de Desenho, para obtenção de efeitos decorativos.

Cabazes e cestos de vime e cana; exercícios similares com materiais de interesse regional.

Trabalhos de madeira:

Etiquetas em tabuinha ou em contraplacado, para encomendas, chaves, classificação de plantas ou de rochas, indicações de biblioteca, etc.

Caixas rectangulares (pregadas) para objectos comuns (lápis, lenços, etc).

Cestos ou objectos semelhantes, a partir de tábuas rectangulares, pregadas ou aparafusadas (sem malhetagem), pintadas ou enceradas; decorações simples.

Jogos de dominó, com pontos pintados. Suportes para escovas, chaves, etc. Cabides recortados à serra, com pintura lisa ou decorados. (Nos exercícios deste grupo, ensinar-se-ão os rudimentos da técnica de aparelhagem para pintura e de colagem ou grudagem das madeiras.)

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Cultura de plantas de ciclo vegetativo completo durante o ano lectivo.

Cultura de flores, em vasos ou canteiros. Arranjo de canteiros.

3.º e 4.º anos

Trabalhos de madeira:

Prateleiras, cerra-livros e outros objectos, com malhetagens muito simples.

Molduras muito simples (para os mais destros), como aperfeiçoamento: tabuleiros, portas corrediças para armários, etc.

Trabalhos com materiais plásticos,e semiplásticos:

Exercícios de modelação.

Exercícios com vimes, verga ou outros materiais de interesse regional: encanastramento, entrelaçados, asas, etc.

Exercícios de tecelagem.

Trabalhos de metal:

Exercícios incluindo limagens de certo rigor, para obter cotas dadas, em aço macio ou latão.

Exercícios em chapa fina incluindo limagens, dobragens e soldaduras.

Montagens mecânicas simples.

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Extensão dos trabalhos do ano anterior.

Plantação de tubérculos e de estacas.

Podas e despontos.

Enxertos muito simples.

Tratamento antiparasitas.

Criação de animais:

Cuidados de higiene.

Domesticação.

(Sexo feminino)

1.º e 2.º anos

Trabalhos iniciais:

Idênticos aos do sexo masculino.

Trabalhos com tecidos simples:

Confecção ou execução de objectos de utilidade prática, em que sejam aplicados pontos simples de costura, como o ponto adiante, o pesponto, o chuleio e o ponto de bainha. Aplicação de pontos elementares de bordado. Utilização de fios de várias qualidades e cores.

Confecções com fios de lã, algodão ou outras fibras em tricots, crochés e pompons.

Iniciação de exercícios de tecelagem em teares rudimentares.

Trabalhos com materiais semiplásticos:

Exercícios com ráfia, palma ou outra variedade regional utilizável, carneira, cortiça, etc.; associação com tecidos ou outros materiais.

Obtenção de objectos, figuras ou animais com materiais vários, incluindo folhas e frutos secos, trapos, arames, etc.

Costura e bordados:

Trabalhos muito simples, como continuação dos iniciais, em aplicações de utilidade para a aluna ou integrados em projectos de conjunto.

Trabalhos caseiros:

Passar a ferro, lavar roupa, passajar.

Exercícios muito simples de culinária: aquecer o lanche, frigir ovos, fazer café e chá, pudins instantâneos.

Noções sumárias de higiene, limpeza e asseio (individual e no ambiente).

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Como para o sexo masculino.

3.º e 4.º anos

Costura e bordados:

Tirar fios de tecidos; bainhas abertas muito simples.

Confecção de trabalhos em que se apliquem pontos um pouco menos simples que os 1.º e 2.º anos, como o ponto de cruz, o ponto jugoslavo, etc.

Confecção ou execução de roupas de crianças; sua decoração.

Colaboração em trabalhos de conjunto.

Trabalhos com materiais plásticos:

Confecções simples ou decorações de peças executadas com feltros ou tecidos grossos.

Figuras e bichos.

Tecelagem simples.

Trabalhos com materiais semiplásticos:

Continuação dos exercícios do ano anterior.

Trabalhos com materiais rígidos fàcilmente cortáveis:

Exercícios com cortiças, ramos, pinhas, frutos secos, etc., com intenções decorativas. Utilização de tintas em decorações.

Encadernação de livros e álbuns. Gravura em linóleo.

Estampagem.

Trabalhos caseiros:

Arranjo de mesa; serviço de copa e de mesa.

Culinária simples: temperos, saladas, sopas, cozidos, guisados, fritos e bolos simples.

Tratamento de roupas, limpeza de manchas e nódoas. Noções de higiene e de limpeza. Tratamento de ferimentos leves; pensos, etc.

Trabalhos de jardinagem e horticultura e criação de animais.

Como para o sexo masculino, completados com o aproveitamento dos produtos obtidos.

Desenho

1.

Poderoso instrumento de cultura geral e estética, o desenho constitui um meio original, vivo e agradável da expressão dos sentimentos e pensamentos do aluno. Como a palavra oral ou escrita, o desenho traduz completamente a personalidade do executante; ambos são linguagem. A colecção dos desenhos de um aluno constitui uma documentação completa do desenvolvimento da sua personalidade, como não é possível em qualquer outra disciplina.

A programação científica da vida moderna acompanha, na escola, a preocupação das representações estéticas, motivando em comum a mesma tendência para a criação, mobilizando idênticas capacidades de recepção e adaptação e desenvolvendo igualmente as faculdades de análise e de síntese.

A didáctica do desenho tem beneficiado de uma renovação de processos que já reuniu assinalados êxitos; postergou-se para um passado distante o comodismo da cópia de estampas e a mera imitação académica do modelo no chamado «desenho à vista». Sòmente há que prosseguir no caminho encetado.

2.

O alumínio inicia o curso quando emerge da fase do realismo intelectual, em que desenha, não o que vê, mas o que sabe, para entrar na fase definitiva do realismo visual, em que procura desenhar o que vê, preocupando-se com a possível representação do espaço.

É nesta última que o desenho deve procurar auxiliar o aluno. Nesse estádio, o aluno luta contra as suas dificuldades de expressão, descontente com o que desenha. Simultâneamente com esta preocupação, o ensino tem de fornecer ao aluno uma técnica, um meio de expressão, e de facilitar-lhe o estudo dos fenómenos perceptíveis à vista.

Para que o ensino possa situar-se, para cada aluno. na altura que lhe cabe, interessa proceder logo de início a um diagnóstico preciso, utilizando um teste proporcionado ao desenvolvimento dos alunos.

Este teste dirá, portanto, respeito àquela preocupação de representação espacial. Assim, aparece no programa a realização do conhecido teste de Decroly sobre representação mental, que propõe aos alunos o desenho de objectos conhecidos, sugeridos mentalmente em posições pouco habituais, para que não se produza influência do realismo visual ou de hábitos gráficos adquiridos.

O diagnóstico é necessário para indicar a existência de alguma incapacidade grave e para dar o tratamento adequado aos muitos casos de inferioridade que forçosamente surgirão.

Tal como sucede com qualquer outro teste, por muito bem aferido que esteja, não se pretende deste um juízo definitivo, nem absoluto; numa turma normal, o seguro critério do professor terá sempre certa primazia no juízo das capacidades dos alunos.

3.

Uma vez estabelecido o ponto de partida, o ensino da disciplina de Desenho integra-se nas finalidades gerais do curso, levando os alunos a exercer uma actividade tanto quanto possível espontânea, dentro dos seus centros de interesse, a partir da observação, mediante percepções sensoriais e experiências, seguida da associação dessas sensações, para chegar à expressão gráfica do conhecimento elaborado.

O aluno tem no ambiente que o cerca os motivos da sua análise visual, em que se reflectirão todos os cambiantes do meio regional e onde actuarão também as diferenças que o sexo e os interesses do observador introduzem no seu modo de ver.

A observação tem de ser viva e suficiente, para estimular a tradução psicomotriz que produzirá um desenho expressivo. Tanto poderá ser actual (desenho objectivo) como anterior (desenho subjectivo); sempre incidirá ou terá incidido sobre formas com significado e conteúdo.

Deste modo, o chamado «desenho geométrico», quando realizado com um apanhado de receitas de traça formalística, sem finalidade tangível, não é de aceitar. Mas, porque esse exercício constitui uma necessidade do programa informativo, com vista às possibilidades de futuras aplicações, há que fornecer aos alunos as noções indispensáveis, no entanto sem a preocupação de incluir nelas conhecimentos que ràpidamente se esquecem; e sempre se tratará o assunto rodeando-o de conveniente motivação e patenteando aos alunos a vantagem e a utilidade de desenhar correctamente, isto é, limpamente e com precisão.

Assim, tanto quanto for possível, o professor fará surgir o tema de cada traçado geométrico a partir das sugestões e das necessidades de resolução de um problema construtivo ou decorativo posto aos alunos; é sempre preferível fazer aparecer o processo geométrico como remate de um surto construtivo, em que o acabamento primoroso e rigoroso se impõe ao próprio construtor.

4.

A graduação e a extensão dos exercícios ao longo dos quatro anos do curso dependerão mais das reacções do aluno do que da ordenada sequência do programa e far-se-ão variar inteligentemente, de acordo com as capacidades de cada aluno. A ordem indicada no programa é, antes de mais nada, um conjunto de estímulos e sugestões que deverão aparecer ao aluno como provenientes de si próprio. A arte do professor consistirá mais em encorajar do que em criticar, em sugerir mais do que corrigir, em propor mais do que impor.

O curso consiste numa sucessão de tarefas para os alunos, o que significa existir também uma tarefa para o professor, sobremodo espinhosa e de responsabilidade, porquanto o facto de haver na aula uma grande liberdade de expressão gráfica obriga o professor a uma actuação especial para cada aluno, que se expressa de modo diferente dos demais. O professar terá então de acompanhar todos os modos específicos de expressão para os valorizar devidamente.

Deste modo, as tarefas apontadas no programa, embora constituam longa enumeração, não obrigam à sua total realização por todos os alunos. São mais opções que deveres: é assim que enquanto alguns alunos, de tendências imaginativas, introspectivos ou criadores de mitos, desenvolverão a sua actividade em torno de desenhos em que a cor e a forma tendem a exprimir a sua personalidade, outros, mais concretos e construtivos, inclinar-se-ão para as decorações utilitárias e, depois, para os exercícios de desenho objectivo matemático. A gama proposta permitirá ainda a desejável variação das técnicas gráficas utilizadas, enriquecendo a experiência plástica dos executantes e alargando os horizontes das suas expressões.

Os exercícios de trabalho colectivo merecem atenção especial. Além de constituírem elevado factor de educação social, permitem criar aqueles hábitos de perseverança e de atenção que a responsabilidade dos trabalhos em equipa desenvolve no aluno.

A posição de cada executante dentro do grupo que se propõe realizar um trabalho de colaboração é objecto de um pequeno problema de consciência cuja resolução enriquece o valor individual do aluno integrado num conjunto em que importa aproveitar a comparticipação de todos. Os trabalhos colectivos serão assim uma magnífica experiência humana, representando um factor de correcção da maior utilidade em relação a inconvenientes tendências individualistas.

Durante os 1.os e 2.os anos o curso dará predomínio aos exercícios de expressão pura, subjectiva e objectiva. O aluno vai-se familiarizando com as harmonias das formas e das cores. A alacridade destas é uma necessidade de comunicação; não deverá inicialmente ser sujeita a qualquer correcção; pouco a pouco surgirá a noção de equilíbrio de tons, como posteriormente a do claro-escuro. O professor deverá anotar cuidadosamente as anomalias que surjam no sentido cromático dos alunos (daltonismo e outras), para que sejam objecto de intervenção por parte dos serviços médico-pedagógicos.

Nos 3.os e 4.os anos já se exigirá mais técnica de desenho, insistindo-se nos exercícios objectivos, sem prejuízo das tendências reveladas pelos alunos. Os aspectos subjectivos serão mais explorados sob as formas de desenho de memória e de imaginação.

5.

Os alunos, durante, o curso, não poderão ver chegar ritualmente todos os anos os mesmos assuntos e desenhar objectos demasiado conhecidos e que encontram em todas as aulas. Também não é de admitir que os exercícios de imaginação, os de observação ou de sentido decorativo alternem entre si sem laços verdadeiros e sem correspondência com outras matérias. Salienta-se ainda que não se podem fixar duas posições na condução didáctica: o desenho e o professor de um lado, os alunos do outro.

É sempre possível no ensino do desenho estabelecer correspondências com as outras disciplinas, pelo que se torna conveniente que os exercícios gravitem à volta de um tema, da exploração de um «centro de interesse», sobretudo por parte dos professores polivalentes que fàcilmente estabelecerão um programa construtivo.

Seria vão pretender fechar o aluno no mundo escolar e convirá, pelo contrário, tirar partido durante a execução do programa dos conhecimentos adquiridos fora da aula, pois não raro os alunos desatentos à aula estão atentos perante outros acontecimentos que os entusiasmam.

6.

As diferentes rubricas do programa estão indicadas sem obediência a nomenclatura fixa, para que fique vincado que se trata de questão de somenos: interessa o que se faz, e não como se chama. Aparecem, assim, desenhos livres, à vista, do natural e interpretativos, sem discriminar o que é livre, o que é objectivo ou que é interpretação pessoal.

Ultrapassada a fase em que se tornou necessário optar por uma terminologia mais ou menos fixa para conseguir uma renovação de fundo na aprendizagem do desenho, parece agora natural voltar a certa liberdade no tratamento do assunto.

Em cada teste a fazer o professor apresentá-lo-á a toda a turma, com enunciado perfeito e claro, sem explicações complementares que induzam um caminho para a solução. Não se apresentará aos alunos qualquer correcção do exercício.

No desenho livre, não interessa apreciar o valor, porventura aparente, da vocação artística do aluno, mas sim a exteriorização da sua personalidade. Na apreciação, o professor poderá apresentar comentários seus ou provocá-los por parte do autor, sempre sem ferir a natural susceptibilidade deste, de forma que, sem a criação de qualquer complexo, os alunos sintam que a sua liberdade de expressão só tem como limite a liberdade dos outros.

No desenho à vista, do natural ou interpretativo, os executantes apresentarão as suas impressões pessoais sobre formas e cores, naturalmente diferentes de sujeito para sujeito. Interessa aqui, dentro dos objectivos fundamentais da educação plástica, tornar mais hábil a mão que desenha e mais arguta a mente que vê, levando o aluno à cooperação com o professor na capacidade de apreciar o trabalho executado, apurando a sensibilidade, de forma que ressalte a expressão humana com que a arte se projecta na vida social.

No desenho decorativo, o aluno utiliza os elementos suscitados pela observação e transformados por uma interpretação simplificadora, agrupando-se pela forma que lhe pareça melhor, para servirem de ornamento funcional. Nesta modalidade, o professor apreciará a influência da imaginação criadora e a capacidade para o equilíbrio das formas e das cores, na obtenção dos efeitos requeridos, procurando canalizar o esforço dos executantes no sentido das expressões estéticas com finalidades utilitárias, sem prejuízo da originalidade e da frescura da realização gráfica.

O desenho geométrico destina-se a preparar a solução de pequenos problemas práticos; muito embora a lápis, devem ser objecto de cuidados de limpeza e exactidão. Esta última qualidade refere-se à concordância e às medições, que alguns alunos têm certa tendência para descuidar.

7.

Faz-se sentir nesta disciplina, mais do que em qualquer outra, a vantagem de permitir que, na maioria dos casos, as tarefas possam ser concluídas na mesma sessão em que foram iniciadas, sem deixar esmorecer o interesse pela criação. Deste modo, cada sessão terá 75 minutos ininterruptos, compreendendo os pequenos lapsos de tempo necessários à preparação inicial do material de trabalho e à sua arrumação no final.

O material usado é o corrente em desenho: régua T, esquadros (45º e 60º), duplo decímetro graduado, lápis (n.os 2 e 3), cores (guacho, aguarela e pastel), borracha (de uso restrito), pincéis, tira-linhas (para alguns exercícios geométricos).

Todos os alunos deverão ficar sabendo como aparar um lápis, limpar uma borracha, um tira-linhas, um pincel, etc., de forma que o façam com a possível correcção.

8.

A ficha individual de orientação escolar para esta disciplina deverá conter os dados específicos referentes aos resultados dos testes Decroly, o tipo de exercícios em que o aluno demonstra maior capacidade e as inibições particulares reveladas pelos seus desenhos, além dos dados gerais sobre atenção, memória, inteligência, coordenação motora e outros.

9.

Nesta disciplina não há que estabelecer sumários de lições, como também não haverá qualquer caderno para os alunos; é o conjunto dos trabalhos de cada um destes que documenta a actividade das aulas.

Não se recomenda obrigatòriamente o uso de qualquer compêndio escolar, nem sequer para os exercícios de desenho geométrico, mais susceptíveis de apresentação sob a forma de receitas de execução. Evidentemente, ninguém se lembraria de ensinar a responder aos testes; nem há compêndios que sirvam para os alunos aprenderem a expressar os seus pensamentos por meio de desenhos. O uso de livros com desenhos feitos para serem copiados está naturalmente fora de qualquer discussão; o desenho do natural não pode ser de estampa e os compêndios não chegam para ensinar um aluno a ver.

Estas normas não dizem respeito aos mostruários pictóricos, nem às tabelas sobre harmonia de cores. As salas de desenho (como, aliás, toda a escola) podem e devem estar repletas de elementos de beleza, num sentido decorativo que é mister saber manter e variar de acordo com as possibilidades. Flores, plantas, estatuetas, pinturas murais, tapeçarias e tantos pormenores em que o bom gosto de todos se patenteará.

A arte é, na sua totalidade, um elemento perene da verdadeira educação.

Esquematização programática

1.º e 2.º anos

I) Exercícios iniciais

Desenho livre. - Cada aluno começa por executar, na folha de papel que lhe é dada, um desenho à sua vontade - o que entenda e como queira, com cores ou a preto e branco, a lápis ou tinta. O professor procurará não ter que sugerir o motivo, apenas incitando os mais tímidos. Não intervém na execução, mais exige em cada desenho uma legenda explicativa.

Teste. - Os alunos da turma executam simultâneamente um teste de representação mental de Decroly Classificação de cada aluno num dos cinco estádios correspondentes aos resultados do teste.

Desenho à vista. - Modelo tipo: casas e árvores. Paralelepípedos rectangulares com coberturas de telha (vermelho), paredes brancas, aberturas rectangulares (portas e janelas). Árvores de copa esférica ou cónica, verdes; troncos cilíndricos, em tons escuros.

Desenho de memória ou de imaginação. - Paisagens com casas e árvores.

Desenho interpretativo. - Modelo tipo: jarras de formas simples, pintadas de uma só cor ou com barras de cores diferentes.

Ao representar o objecto do desenho à vista anterior, o aluno pode modificar as cores à vontade, porquanto é preciso destruir o preconceito de que as cores devam ser sempre as reais ou aparentes; e, se quiser, pode supor a jarra com uma ou mais flores dentro. As cores podem ser obtidas a partir de recortes de papéis lacados ou ainda lápis, aguarelas ou outros materiais.

Desenho geométrico. - Aproveitar a sugestão das flores para ensinar a desenhar geomètricamente uma flor de seis pétalas com base na divisão da circunferência.

Utilizar a experiência das cores para dar ao desenho uma aplicação decorativa.

Desenho de memória. - Um caso vivido pelo aluno: um passeio, uma feira, um circo, etc., compreendendo figuras de pessoas, animais e outros elementos da lembrança do executante. Cor. Descrição sumária da cena, numa legenda explicativa.

Desenho à vista. - Modelo tipo: utensílio ou objecto usal, cujas dimensões caibam na folha de desenho, sem redução apreciável, e com uma forma baseada em superfícies simples, planas ou de revolução.

A interpretação do executante pode ir até à alteração das cores do modelo. Tomem-se em atenção as modificações da relação entre a altura e o maior diâmetro ou largura; sem corrigir, mostre-se ao aluno a deformação, se a houver.

Desenho geométrico. - As portas e janelas das casas são rectângulos; as paredes também. Podemos construir rectângulos a partir dos quadrados de papel quadriculado; cada dimensão dos rectângulos construídos fica dividida em partes iguais. Os lados continuam paralelos. Com base nesta sugestão construtiva, o aluno aprende os processos geométricos de:

a)

Dividir um segmento de recta em duas partes iguais, em quatro, em oito, etc.;

b)

Levantar uma perpendicular no extremo de um segmento de recta (utilizando sòmente a régua e o esquadro);

c)

Construir um quadrado com um lado dado.

Em continuação destes exercícios o aluno aprenderá a traçar a bissectriz de um ângulo.

Desenho do natural. - Modelo tipo: edifício com uma massa saliente no sentido da altura (chaminé, torre, etc.). Indicação de portas, janelas e telhados; colorido. Chama-se a atenção do aluno para o facto de certas distâncias não sofrerem encurtamento aparente, enquanto outras o sofrem (efeito de perspectiva).

II) Exercícios de continuação

Desenho livre. - Recordação de paisagens, vistas, imaginadas ou sonhadas. Árvores e casario. Efeitos de perspectiva (sem correcção directa pelo professor). Tentativas mais cuidadas do desenho de figuras (humanas e animais) obtidas de memória.

Desenho interpretativo. - Modelo tipo: objectos com predomínio de massas horizontais ou verticais (utensílios, ferramentas, etc.).

Desenho geométrico. - Com base em sugestões de intenção decorativa ou construtiva, abordar-se-ão os seguintes problemas:

a)

Construção de rectângulos e paralelogramos, dadas as diagonais; exercícios de esquadria de papel;

b)

Divisão de uma circunferência em duas, três, quatro, seis e oito partes iguais; construção dos polígonos regulares inscritos de três, quatro, seis e oito lados.

III) Exercícios finais

Desenho do natural. - Modelo tipo: objecto usual com simetria marcada e, depois, dois objectos usuais com simetrias do mesmo tipo, mas contrastando pelas proporções.

Composições livres. - Continuação dos exercícios de memória visual. Cenas simples contendo movimento. Coloridos. Trabalhos colectivos.

Nos exercícios que levem letreiros deverá pouco a pouco incutir-se nos alunos a vontade de desenhar as letras e os algarismos, isto é, dar-lhes uma certa unidade de tamanho e apresentação. Os resultados iniciais não serão satisfatórios em muitos casos, mas o que mais importa é a aplicação do aluno com a intenção de vir a fazer melhor.

Os traçados do desenho geométrico devem ser feitos e acabados a lápis.

3.º e 4.º anos

I) Exercícios iniciais

Desenho do nautral. - Modelo tipo: folhas vegetais com forma recortada. Chama-se a atenção para a forma geométrica da linha envolvente e a sua constância nas plantas da mesma espécie. Não se trata de um exercício de desenho geométrico; pretende-se sòmente um traçado firme, feito à mão livre e ràpidamente.

Desenho decorativo. - Aproveitamento das sugestões do desenho anterior para a realização de conjuntos decorativos. Transformações simplificativas (primeiro esboço de estilização).

Desenho à vista. - Estudos sobre modelos tipos com formas definidas e arestas marcadas (utensílios, ferramentas, etc.). Podem-se dar agora aos alunos algumas ideias gerais sobre perspectivas de observação, sem necessidade de mencionar os pontos e linhas notáveis. Simplesmente se tratará de chamar mais uma vez a atenção para os fenómenos da perspectiva e dar alguns meios de os verificar.

Alguns destes desenhos, começando pelos modelos mais simples, serão executados como exercícios de memória visual, apresentando-se o modelo ao aluno apenas por um curto lapso de tempo, considerado suficiente para a retenção das formas a desenhar.

II) Exercícios de continuação

Desenho à vista. - Modelo tipo: objecto usual com formas arredondadas. Estudo elementar do claro-escuro.

Desenho geométrico. - Aproveitando a sugestão do exercício anterior, o aluno executa desenhos geométricos sobre os seguintes problemas:

a)

Circunferências concêntricas, tangentes e secantes

b)

Traçagem de tangentes à circunferência num ponto dado nesta; polígonos regulares circunscritos de três, quatro e seis lados. Deve atender-se à apresentação desta espécie de desenho, acostumando-se o aluno a hábitos de rigor (nas concordâncias e nas medições) e de limpeza.

III) Exercícios finais

Desenho do natural. - Modelo tipo: flores, frutos, etc. Estudo dos valores e das matérias. Ensaios de tradução do mesmo modelo com diferentes técnicas: pena, pincel, pauzinho, etc. Fundos. Os alunos de mais apurada sensibilidade estética podem tomar seres vivos por modelos (se tentam o retrato do natural, não deve o professor impedi-lo, quando os julgue com suficiente capacidade).

Desenho decorativo. - Aproveitando motivos desenhados do natural, os alunos serão interessados no estudo do equilíbrio de valores e de massas, num esboço de representação esquemática, com intenções decorativas.

Composições livres. - Temas de memória ou de evocação; narrativas, poemas, fábulas, cenas de jogos, da rua, do trabalho. Observação do movimento e das atitudes. Trabalhos colectivos.

Educação Física

(Sexo masculino)

Considerações gerais

Os programas da disciplina de Educação Física para os professores de posto são condicionados por três aspectos fundamentais que integram o conceito de educação: o objecto, o fim e os meios.

É objecto da educação do aluno o espírito e corpo em unidade de natureza; o fim reside no desenvolvimento integral e harmónico desta unidade indivisível; os meios de que se serve a acção educativa são diversos e variáveis, dependendo dos efeitos imediatos pretendidos.

Aspecto imprescindível da formação integral, a Educação Física utiliza como meio principal os exercícios físicos, tendo por fim a adaptação biológica do indivíduo, o reforço das suas qualidades de saúde, a educação psicomotriz, a formação do carácter e a educação social.

A disciplina de Educação Física é obrigatória. O aluno poderá ser dispensado da prática de todos ou determinados exercícios físicos, mas nunca de participar em tarefas relacionadas com aquela disciplina, processo particularmente válido pelo que daí pode para ele advir de benéfico sob o ponto de vista psico-social - libertar-se, com êxito, da diminuição de que se sente possuído.

A sua colaboração reveste-se de interesse em tarefas de:

Organização (planeamento de torneios, informação e difusão);

Direcção (arbitragem, cronometragem, etc.).

O principal objectivo da Educação Física, educação pelo movimento, é colaborar no desenvolvimento das grandes funções.

O ensino desta disciplina far-se-á através de lições, que, independentemente do seu conteúdo próprio, estarão relacionadas com as antecedentes e prepararão as futuras, constituindo um conjunto coerente, integradas no planeamento anual estabelecido para cada turma. Deverá ser ministrado por professores habilitados especìficamente, actuando segundo a orientação pedagógica, metodológica e técnica da Inspecção do Ensino de Educação Física, que procurará sempre nortear-se pela preocupação de a inserir no plano de acção do curso, sem perder de vista a sua integração no todo, que é a Educação Física juvenil.

Condicionamentos base

Para além das finalidades que caracterizam o curso, duas coordenadas imediatas são a atender no estabelecimento dos programas de Educação Física: a idade bio-psicológica do aluno e o seu grau de preparação anterior.

Consequências

Os exercícios, utilizados principalmente sob a forma de actividades atraentes, devem fazer apelo à precisão, à velocidade, à descontracção e à prontidão de execução.

É importante dar atenção aos hábitos posturais. Os desvios de morfologia normal exigem intervenção correspondente à perturbação.

Deve visar-se o desenvolvimento dos músculos esqueléticos.

Têm importância os exercícios de ritmo.

As sessões de educação física deverão ser de duração curta (trinta e cinco a quarenta minutos) e terminar com exercícios de intensidade fraca que permitam ao aluno recuperar.

Podem incluir-se actividades que exijam elevado grau de desembaraço; testes de avaliação são um meio bem recebido, porquanto mostram os progressos que cada um tem feito.

Os jogos de rápida movimentação, que solicitem decisões rápidas e precisas, estão ao alcance das aptidões e capacidade dos alunos.

Os jogos de equipa, as actividades colectivas, a cooperação no grupo de jogo, são manifestações que satisfazem os interesses dos alunos.

Devem utilizar-se os jogos de equipa e os testes (percursos) que incluam competição. A experiência de arbitragem é importante pelo que implica de respeito às regras aceites e que se fazem observar.

Algumas actividades de carácter utilitário podem ser comuns aos dois sexos. Outras, como as que solicitam a força e a destreza, são específicas do sexo masculino.

O campismo, o montanhismo e outras actividades de ar livre constituem excelentes meios de satisfação dos instintos de exploração.

Insistir nos hábitos posturais e no trabalho da musculação, embora condicionado à evolução morfológica.

O enfraquecimento da resistência, associado às exigências do trabalho escolar, deverá influenciar o ritmo das sessões. Evitar exercícios de fundo, corridas prolongadas.

Deve utilizar-se frequentemente trabalho de características colectivas.

Deve possibilitar-se a participação dos alunos em actividades novas (destrezas mais difíceis) e intensificar a realização de jogos que solicitem a audácia e o risco.

Devem eliminar-se os perigos de uma competição levada a extremos.

Entre as preocupações pedagógicas a encarar no que se refere à competição, deve atender-se:

Ao progresso individual;

À necessidade das regras do jogo;

À colaboração do aluno com o professor na organização e direcção das actividades. Nomear «capitães», «chefes de grupo», «árbitros», etc., representa óptima resolução.

A motricidade global e espontânea deve gerar a preocupação de independência segmentar e de motricidade controlada, do que resulta o carácter mais analítico de determinadas formas de acção no ensino.

Precauções

Estar atento aos sintomas de fadiga.

Procurar que a lição seja estimulante e não fatigante.

Evitar a monotonia na apresentação e no desenvolvimento das actividades.

Não pretender especialmente desenvolver a força muscular, nem a resistência funcional.

Ter como preocupação permanente o aperfeiçoamento da coordenação motriz.

Ter ainda outra preocupação - ser um exemplo.

Meios

Para além de todos os meios gerais inerentes a qualquer acção educativa, a Educação Física utiliza, além dos agentes físicos naturais, os seguintes, que lhe são específicos: a ginástica, o jogo e a iniciação desportiva.

Nas práticas gimnodesportivas de natureza circum-escolar devem incluir-se, ainda, as actividades de campo.

Todo o procedimento a adoptar estará sempre condicionado por preocupações formativas. No entanto, há que admitir aspectos complementares inerentes a cada um dos meios:

Ginástica - objectivo essencialmente morfo-funcional;

Jogo - objectivo essencialmente psico-social;

Iniciação desportiva - objectivo essencialmente psico-social e de aplicação (criação de meio e hábitos de ocupação sadia dos tempos livres).

A ginástica, actividade analítica por excelência na sua forma, realiza-se através de exercícios, cuja execução visa objectivos de natureza anátomo-fisiológica.

O jogo constitui uma actividade sincrética de efeitos generalizados e de grande significado pedagógico, que visa:

Fornecer ao professor preciosos elementos de apreciação e correcção de comportamento;

Representar uma escola de esforço;

Permitir uma compensação ao sedentarismo e uma expansão à necessidade de movimento;

Favorecer a aprendizagem de destrezas muito úteis à preparação para a vida;

Permitir a ordem lúdica (pela lei do jogo), veículo condutor para a ordem (senso moral);

Canalizar educativamente o instinto de luta;

Desenvolver o espírito de grupo.

A iniciação desportiva é uma actividade que se caracteriza pela simplificação da técnica e táctica das diversas modalidades desportivas, bem como das suas exigências físicas. Deve ser orientada para o aperfeiçoamento dos gestos e o estudo dos «estilos» e para a obtenção da precisão e facilidade do movimento e da participação nas jogadas colectivas.

As excursões no campo, o campismo e outras actividades de ar livre correspondem às formas mais primitivas e naturais de educação física. Os estímulos surgidos na sua prática agem benèficamente, não só sob o aspecto físico, mas também pelo apelo frequente ao raciocínio e à decisão decorrentes da necessidade de resolver situações diversas e inesperadas em contacto com a Natureza, pelas manifestações de sensibilidade artística que os motivos de paisagem proporcionam e pelo fortalecimento do amor à Natureza.

Esquematização programática.

Ginástica

São aconselháveis em todas as sessões:

Exercícios que desenvolvam a disciplina e a atenção;

Exercícios que concorram para a obtenção da boa atitude corporal e sua conservação;

Exercícios destinados ao desenvolvimento da coordenação neuro-muscular;

Exercícios de desenvolvimento da flexibilização;

Exercícios de suspensão (em que o apoio é dado pelo braços e, ainda, por qualquer outra parte do corpo);

Exercícios de equilíbrio (no solo ou a pequena altura);

Exercícios de saltos simples (no solo ou nos aparelhos).

O emprego frequente do material didáctico concorre para tornar o ensino mais interessante e atraente, facilita a acção correctiva da ginástica e permite uma programação mais variada e rica e uma progressão mais fácil.

São de eliminar:

Os exercícios que exijam exagerado esforço muscular;

Os exercícios de exagerada flexibilidade articular.

1.º e 2.º anos

Atletismo (a):

Corridas de velocidade até 40 m;

Corrida de resistência até 500 m (tempo nunca inferior a 2 minutas e 30 segundos);

Percursos de orientação;

Corridas de corta-mato;

Corridas de estafetas;

Passagem de barreiras;

Salto em comprimento, sem e com corrida preparatória;

Salto em altura;

Lançamento de peso de 2 kg (com uma e outra mão);

Lançamento de bola de ténis - preparatório para o lançamento de dardo (com uma e outra mão).

Natação (a):

Exercícios e jogos recreativos na água;

Aprendizagem da flutuabilidade, de frente e de costas;

Saltos para a água à vontade (da altura máxima de 1 m);

Aprendizagem dos estilos bruços e crawl.

Andebol:

Andebol simplificado.

Basquetebol:

Basquetebol simplificado.

Voleibol:

Voleibol simplificado (3 contra 3).

3.º e 4.º anos

Atletismo (a):

Corridas de velocidade até 50 m;

Corridas de resistência até 600 m (tempo nunca inferior a 3 minutos);

Percursos de orientação;

Corridas de corta-mato;

Corridas de estafetas;

Corridas de barreiras;

Salto em comprimento com corrida preparatória;

Salto em altura;

Lançamento de peso de 3 kg (com uma e outra mão);

Lançamento de bola de hóquei (com uma e outra mão);

Lançamento de slung-ball de 0,800 kg com uma e outra mão).

Natação (b):

Aprendizagem do estilo de costas;

Aperfeiçoamento dos estilos bruços e crawl;

Saltos para a água;

Exercícios de salvamento.

Andebol:

Miniandebol.

Basquetebol:

Minibasquetebol.

Voleibol:

Voleibol.

Finalidade da disciplina de Educação Física

A educação física, utilizando como meio específico o movimento e considerando a unidade individual do ser humano, procura:

1.

O desenvolvimento das capacidades psicomotoras, nomeadamente a estruturação perceptiva (do esquema corporal e espacial e temporal), o ajustamento postural e o ajustamento motor (habilidade manual, coordenação dinâmica geral e adaptação a praxes variadas).

2.

A preparação para a vida social, solicitando, através da dinâmica de grupo, comportamentos de iniciativa, responsabilidade, colaboração e aceitação dos outros.

3.

A correcção das perturbações de relação entre os diferentes segmentos corporais (atitude estática e atitude dinâmica), conforme os elementos recolhidos em despistagem feita no início do ano lectivo.

Meios de educação física

a)

Ginástica

Esta modalidade, clàssicamente considerada a base da educação física, pela possibilidade de influenciar analìticamente o desenvolvimento do indivíduo, ministrada de uma maneira viva e interessante, através de uma alternância de exercícios de formas determinadas com outros de feição recreativa, permite que, em pouco tempo, com espaço e com material didáctico relativamente reduzidos, se dê um trabalho generalizado e sistemático ao organismo.

No começo do ano escolar far-se-á, com base nas condições gerais em que se irá processar o ensino, um planeamento, contendo, pelo menos, um esquema de lição por mês. Neste se tomará em conta uma progressão de exercícios que se relacionem harmònicamente com os antecedentes. A mesma progressão deve verificar-se entre os exercícios dos quatro anos do curso.

Nesse planeamento deverão ser considerados os objectivos definidos, devendo também os agentes de ensino estar alertados para a necessidade de constante adaptação dos movimentos propostos, quer às possibilidades dos alunos, quer às suas reacções.

b)

Jogos

1.º e 2.º anos:

Jogos de perseguição;

Estafetas;

Jogos diversos;

Jogos em pequenos grupos;

Formas jogadas de voleibol e basquetebol.

c)

Iniciação ao atletismo

1.º e 2.º anos:

Corrida até 50 m;

Salto em comprimento sem e com balanço;

Salto em comprimento com balanço (exige caixa de saltos);

Lançamento de bolas pequenas (80 g) e grandes (futebol n.º 4);

Salto em altura.

3.º e 4.º anos:

O mesmo programa do ano anterior;

Partida baixa;

Lançamento de bolas com pás de madeira.

(Manual de Jogos Educativos.)

d)

Natação

1.º e 2.º anos:

Exercícios de adaptação ao meio aquático;

Exercícios de adaptação à locomoção no meio aquático;

1.º e 2.º graus dos diplomas de natação da Mocidade Portuguesa.

e)

Campismo e vida ao ar livre

3.º e 4.º anos:

O campismo e a vida ao ar livre vêm aumentar o conhecimento e o amor à própria terra, além de serem uma forma natural de educar.

1.º e 2.º anos:

Conhecimento de sinais topográficos e jogos para fixar e reconhecer os mesmos numa carta. Jogos de «pista» e «rasto» no terreno. Alguns nós mais frequentes.

3.º e 4.º anos:

Utilização da bússola e jogos para fixação da rosa-dos-ventos; orientação pela vara vertical. Levantamentos topográficos em miniatura. Jogos de conhecimento da natureza. Outros tipos de nós.

f)

Rodas cantadas e danças folclóricas

Têm um significado especial para os alunos, como actividade rítmica elementar acessível a todos, além de criarem um sentido patriótico dos valores de cultura popular.

Não se indica um programa, pois deve cada região cuidar do seu, cultivando esta actividade no sentido de a transmitir na sua pureza às gerações futuras.

Programas do ciclo preparatório do ensino secundário, aprovados pela Portaria n.º 23601, de 9 de Setembro de 1968, do Ministro da Educação Nacional, aplicados às escolas de habilitação de professores de posto escolar, com as adaptações e distribuição constantes do texto seguinte:

Língua Portuguesa

I) Valor e finalidade do ensino da língua portuguesa.

II) Princípios fundamentais de actuação didáctica.

III) A biblioteca da sala. Colecções de recortes e gravuras

A) A biblioteca;

B) Colecções de recortes e gravuras.

IV) Actividades:

A) Orais:

a)

Correcção fonética e articulatória. Elocução e arte de dizer:

1.

Correcção de desvios fonéticos, articulatórios e de elocução;

2.

Elocução;

3.

Arte de dizer;

b)

Estudo do sentido dos textos e leitura;

B) Escritas:

a)

Composição e outros exercícios;

b)

Tarefas maiores.

V) Vocabulário.

VI) Noções gramaticais.

I

Valor e finalidade do ensino da língua portuguesa

Quando começa a frequentar a escola, o aluno expressa-se já com certo grau de eficiência, o grau tornado possível pelo seu anterior aprendizado, pela sua experiência social, pela sua idade e pela sua capacidade mental. Cabe agora fomentar o desenvolvimento progressivo, contínuo e aperfeiçoado dessa expressão, através, quer da sua correcção fonética, morfológica e sintáctica, obtida essencialmente por meio de constantes exercícios de elocução, quer pelo alargamento do vocabulário, da capacidade de interpretação dos textos e da transmissão oral e escrita do pensamento alheio ou pessoal. É do reconhecimento geral que quanto maior for a destreza alcançada na prática oral e escrita da língua, maior será o rendimento obtido no aprendizado das outras matérias. É uma das razões por que o ensino da língua pátria ocupa nos planos de estudo dos vários países um lugar de relevo.

Mas outras há e de não menor valor: a língua pátria é o principal veículo de cultura, o mais forte elo de uma convivência social e um dos mais importantes vínculos da unidade nacional.

Por outro lado, através do seu ensino promove-se o enriquecimento interior do aluno, despertam-se-lhe na alma sentimentos de beleza e desenvolvem-se-lhe a sensibilidade e a imaginação.

Serve, pois, o ensino da língua pátria objectivos múltiplos conducentes à formação do aluno e à sua valorização pessoal e social. Podemos sintetizar estes objectivos do modo seguinte:

a)

Desenvolver a capacidade de expressão oral e escrita com a maior correcção possível;

b)

Desenvolver a capacidade de interpretação do que se lê, do que se ouve e do que se vê;

c)

Criar o gosto da leitura;

d)

Estimular, a par do desenvolvimento das capacidades intelectuais e morais, a formação do sentido estético, por meio de sugestões que actuem sobre a sensibilidade e a imaginação;

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