Decreto Regulamentar n.º 11/2002 — Aprova o Plano de Bacia Hidrográfica do Lima

Tipo Decreto-Regulamentar
Publicação 2002-03-08
Estado Em vigor
Texto Tal como publicado
Ministério Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território
Fonte DRE
artigos 2

Este é o ato tal como foi publicado. As alterações posteriores não estão incorporadas no texto: cada uma é um ato autónomo neste repositório e uma entrada no historial desta lei.

Aprova o Plano de Bacia Hidrográfica do Lima

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O único regadio público existente na área do Plano apresenta elevadas perdas de água resultantes do envelhecimento das infra-estruturas de rega, actualmente desenquadradas dos modernos sistemas de adução e distribuição de água.

Relativamente aos regadios tradicionais, dada a rusticidade e, por vezes, a longevidade das diferentes estruturas de captação, adução e distribuição, a eficiência de utilização da água é ainda mais baixa, ocorrendo perdas da ordem de 50% por escoamento e por percolação profunda. Ao abrigo de programas de financiamento foram canalizados investimentos para a reabilitação de regadios tradicionais, essencialmente na recuperação de açudes e impermeabilização de levadas. Como vantagens óbvias e imediatas, ressalta a melhoria da eficiência de captação, de transporte e de distribuição de água, com algum significado no aumento dos caudais disponíveis para a rega. No entanto, verifica-se que, em alguns casos, essas melhorias não foram acompanhadas por medidas correctas de gestão e aplicação da água, tais como a implementação de novos esquemas de distribuição, pelo que a eficiência de utilização de água continua por isso a ser baixa, nesses casos.

No que diz respeito aos regadios privados, dada a sua multiplicidade quanto a localização, dimensões, tecnologias de rega e origens de água, devem ocorrer as situações mais diversas quanto à eficiência de utilização da água. Pode afirmar-se que, de um modo geral, tal eficiência é baixa, principalmente quando os recursos hídricos são mais abundantes e quando as tecnologias são pouco evoluídas, que é o caso mais comum. Neste grupo também existem alguns regadios modernos onde se praticam técnicas de rega de elevada eficiência, em especial nas zonas mais secas da área do Plano ou em explorações agrícolas de maiores recursos.

CAPÍTULO 4 — Qualidade da água

a)

Qualidade da água para usos múltiplos

Com uma rede de monitorização instalada relativamente reduzida e abrangendo uma matriz de parâmetros assim como uma frequência de amostragem insuficientes, caracterizou-se a situação geral como bastante favorável: das 14 estações monitorizadas classificadas, em 9 (ou seja, quase dois terços das estações) os cursos de água classificam-se como «fracamente poluídos» e apenas em 5 a avaliação é de cursos de água «poluídos» (2 estações) ou «extremamente poluídos» (3 estações). Actualmente, esta rede encontra-se em fase de reestruturação.

A situação é genericamente bastante satisfatória quanto a CBO(índice 5), OD, nitratos e azoto amoniacal.

Note-se que em quatro dos cinco casos críticos - Bertiandos (no rio Lima), Arcozelo (no rio Labruja), Ponte Velha (no rio Vez) e Barroselas (no rio Neiva) - a classificação desfavorável está associada a um número muito reduzido de determinações analíticas (apenas quatro a seis durante um ano) e que nos três casos mais críticos a avaliação desfavorável decorreu de situações muito pontuais, associadas a valores excessivos de alguns parâmetros (condutividade em Lanheses, coliformes fecais em Bertiandos e SST em Barroselas).

b)

Qualidade da água em função dos usos e utilizações designadas e potenciais

A qualidade da água na área do PBH do Lima é fortemente influenciada pela concentração da população no litoral e pela presença dos principais aglomerados populacionais junto ao próprio rio Lima.

A rede hidrográfica da área do PBH do Lima pode considerar-se, em termos gerais, como pouco poluída e tendencialmente mais degradada do interior para o litoral, perspectiva que se reporta quer às águas superficiais quer às águas subterrâneas, sobretudo face à ocupação humana do território, à natureza das actividades económicas instaladas e às características das formações geológicas dominantes. No sentido de caracterizar as diferentes situações, de forma a evidenciar os principais problemas, podem identificar-se, grosso modo, três zonas:

(ver tabela no documento original)

Foram identificadas diversas situações de risco de poluição acidental associadas a fontes de poluição industrial (nos concelhos de Viana do Castelo e Ponte de Lima), a uma instalação de armazenamento de resíduos industriais (em Viana do Castelo), a três grandes instalações de tratamento de águas residuais urbanas (duas em Viana do Castelo e uma em Vila Praia de Âncora) e a uma instalação de tratamento de resíduos urbanos abrangida pela Directiva IPPC, além de alguns atravessamentos rodoviários ou ferroviários dos principais cursos de água e à zona portuária e estaleiros de Viana do Castelo.

Os problemas identificados na qualidade dos meios hídricos resultam no essencial de:

Baixos índices de atendimento, sobretudo em instalações de tratamento de águas residuais urbanas;

Ocorrência de situações de inexistência de sistemas de tratamento de efluentes industriais;

Lixeiras que apenas muito recentemente foram desactivadas;

Insuficiente implementação da legislação em vigor nos domínios da fiscalização, do licenciamento e do acompanhamento da aplicação das disposições legais;

Falta de alguns planos de acção faseados para melhoria da qualidade da água;

Vulnerabilidade das captações a fontes de poluição e à ocorrência de situações de poluição acidental;

Protecção pouco efectiva das captações de águas superficiais e das captações de águas subterrâneas;

Precariedade dos sistemas de monitorização instalados, quer das águas superficiais quer das águas subterrâneas;

Cadastros/inventários insuficientemente organizados.

CAPÍTULO 5 — Ecossistemas aquáticos e terrestres associados

a)

Situação actual e importância

A área do Plano engloba importantes áreas para a conservação da natureza, como são disso exemplos a Zona de Protecção Especial da Serra do Gerês, os sítios Lima e Serra de Arga integrados no processo da Rede Natura 2000 e as áreas integradas na Rede Nacional de Áreas Protegidas, como é o Parque Nacional da Peneda-Gerês e as Paisagens Protegidas do Litoral de Esposende, Corvo do Bico e das Lagoas de Bertiandos e de São Pedro dos Arcos.

Esta região suporta comunidades faunísticas e florísticas bastante diversas, que encontram tradução nas diferentes áreas classificadas no âmbito da Rede Natura 2000.

Os cursos de água da área do Plano atravessam um maciço granítico e caracterizam-se por possuírem uma reduzida quantidade de sais dissolvidos, conferindo desta forma uma reduzida produtividade biológica. Como excepção, referimos os rios Estorãos e Vez, onde a diversidade piscícola é elevada, reflectindo o aumento da produção primária relacionada com a entrada de nutrientes. Confirma-se ainda a regressão da lampreia, apenas capturada no troço terminal do rio Lima e no rio Estorãos. Este facto vem comprovar a ineficácia do sistema de transposição de peixes, já que não foi encontrado qualquer efectivo acima da barragem de Touvedo.

No que respeita às albufeiras, verificam-se frequentes situações de anoxia na camada hipolimnética (camada inferior da massa de água) e elevadas biomassas fitoplanctónicas.

A vegetação potencial do piso basal desta região corresponde ao território climácico do Quercion robori-petreae (domínio do Rusco-quercetum roboris).

O piso montanhoso, onde se situam o troço inicial do rio Lima e afluentes, é caracterizado fundamentalmente pelas associações fitossociológicas Blechno-fagetum ibericum (Ilici-fagion) sobre solos ácidos e Melico-fagetum cantabricum (Scillo-fagion) em solos básicos.

Ao nível do estuário, a vegetação potencial inclui caniçais (Phragmites australis) e formações hidrófilas clímax estacionais, com a sequência típica dos sapais do norte de Portugal: Spartina maritma na faixa do infralitoral, passando por Halimione perenne, H. fruticosum/Atriplex portucaloides e juncais (Juncus maritimus). Actualmente ainda subsistem algumas manchas consideráveis com algumas destas formações originais.

Atendendo aos aspectos florísticos e de vegetação, a biodiversidade vegetal, a organização e a estrutura das comunidades ripárias analisadas constituem um geossistema muito sensível e facilmente alterável.

A alteração sobre este tipo de comunidades é reflectida através da abertura termodinâmica e pela falta de conexão entre os três tipos de comunidades ripárias analisadas: comunidade marginal, rupícola e aquática. Tal fenómeno resulta, naturalmente, do alargamento e aprofundamento do leito do próprio rio ou, artificialmente, pela alteração de alguma das referidas comunidades.

No caso da vegetação dos cursos fluviais estudados, estes constituem um tipo característico de bacia norocidental ibérica, de trajectos relativamente reduzidos e limitada largura e profundidade. Deste modo, este tipo de rios está acompanhado por uma vegetação ripária de organização muito complexa e alta diversidade.

Concluiu-se, assim, que qualquer alteração que suponha uma transformação da vegetação ripária, especialmente nos cursos alto e meio, será a causa da abertura do sistema e, portanto, da sua consequente instabilidade irreversível. Tal facto não só condicionaria a vida do próprio rio como também a estruturação e dinâmica da flora e vegetação da totalidade da bacia.

Os rios Lima, Neiva e especialmente o Âncora apresentam a diversidade mais alta de espécies florísticas, mais especificamente nas comunidades marginal e aquática. No entanto, e atendendo à restrição no comportamento das comunidades ripárias rupícolas, este tipo de comunidade constitui um ponto de referência básico para determinar o comportamento da vegetação ao longo dos rios referidos.

Estes cursos fluviais, com profundidades do leito relativamente reduzidas, estimulam o desenvolvimento de comunidades aquáticas, factor este fundamental para estabelecer um maior encerramento do sistema (facilitando assim os processos ecotónicos de transmissão de informação inter e intracomunidades), de maneira que a presença de comunidades ripárias rupícolas se destaca como elemento de reforço dos processos ecotónicos intercomunidades.

Relativamente aos elementos faunísticos, é de salientar a presença de espécies de mamíferos protegidas, nomeadamente a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus), cuja existência está confirmada na bacia do rio Lima e é abundante no interior da área protegida da Peneda-Grerês, o musaranho-anão (Sorex minutus), o lobo (Canis lupus), a lontra (Lutra lutra) e os morcegos Barbastella barbastellus, Myotis emarginatus, Rhinolophus ferrumequinum e Rhinolophus hipposideros.

No rio Lima encontram-se diversos valores ornitológicos, nos quais se incluem a felosa-do-mato (Sylvia undata), a cotovia-pequena (Lullula arborea), o guarda-rios (Alcedo atthis) e o noitibó (Caprimulgus europaeus), espécies do anexo I da Directiva n.º 79/409/CEE.

Realça-se ainda a ocorrência das seguintes espécies de aves: o rouxinol-grande-dos-caniços (Acrocephalus arundinaceus), a petinha-do-mato (Anthus pratensis), a petinha-ribeirinha (Anthus spinoletta) e a codorniz (Coturnix coturnix), a alvéola-amarela (Motacilla flava), a rôla (Streptopelia turtur), o tordo (Turdus philomelos) e as felosas (Phylloscopus collybita, P. trochilus, Locustella luscinioides e L. naevia).

O estuário do Lima não é conhecido como um importante local de passagem ou de nidificação de aves aquáticas migratórias. No entanto, podem encontrar-se aqui algumas espécies de aves com especial significado em termos de conservação da natureza: a garça-real (Ardea cinerea), a garça-branca-pequena (Egretta garzetta), a ógea (Falco subbuteo), a gaivota-do-mediterrâneo (Larus melanocephalys), o garajau-comum (Sterna sandvicensis), a andorinha-do-mar comum (Sterna hirundo), a andorinha-do-mar anã (Sterna albifrons) e a gaivina-preta (Chlidonias niger).

Bacia hidrográfica com uma grande diversidade piscícola onde ocorrem quatro espécies migradoras, de entre as quais o salmão (Salmo solar) (espécie ameaçada de extinção). De realçar ainda a existência da lampreia (Petromyzon marinus), do sável (Alosa alose) e da savelha (Alosa fallax), espécies migradoras em regressão e com estatuto de ameaça.

A área de estuário conserva assim uma elevada biodiversidade, representando um habitat potencial em espaço natural húmido, utilizado como local de nidificação de muitas espécies, pelo que pode ser classificado como importante e sensível do ponto de vista da conservação das espécies e dos respectivos habitats.

Encontram-se vários habitats naturais estuarinos classificados no anexo I da Directiva n.º 92/43/CEE: vegetação anual pioneira de Salicornia e outras de lodaçais e zonas arenosas, prados de Spartina (Spartinion) e prados salgados atlânticos (Glauco-puccinellietalia).

b)

Caudais ambientais

A definição dos caudais ambientais e caudais ecológicos em particular nas diferentes linhas de água da bacia hidrográfica do Lima assume-se como objectivo básico para assegurar uma boa gestão dos recursos hídricos e a preservação dos ecossistemas associados, constituindo um indicador da maior importância para uma adequada aplicação e cumprimento da recente Convenção Luso-Espanhola.

Desta forma, em termos de diagnóstico, apenas cabe referir a necessidade de determinar valores de caudais ambientais, estabelecidos com bases sólidas, designadamente através da aplicação de metodologia adequada. Com vista à superação desta situação, o estudo aprofundado dos critérios a adoptar e a fixação daqueles caudais constituem um dos principais objectivos do presente Plano, tendo sido proposto na síntese dos PBH dos rios luso-espanhóis (INAG 2000), para as secções de fronteira, valores indicativos cujo estabelecimento é da competência da comissão criada no âmbito da Convenção de Albufeira.

CAPÍTULO 6 — Ordenamento do domínio hídrico

Verificam-se em alguns locais da bacia hidrográfica do Lima situações preocupantes relacionadas com usos do solo conflituantes com a preservação da qualidade e quantidade dos recursos hídricos, nomeadamente:

A eutrofização nas albufeiras do Alto Lindoso e do Touvedo está relacionada com usos do solo na sua envolvente. Nestas circunstâncias, o controlo do uso do solo poderá dar um contributo importante para a redução dos níveis de eutrofização;

A expansão urbana actual e programada no âmbito dos PDM coloca diversos problemas ao equilíbrio dos recursos naturais, que se traduzem na artificialização das margens, no aumento dos pontos de conflito com os recursos hídricos, na impermeabilização e contaminação de áreas de recarga de aquíferos, e no aumento das dificuldades e dos custos da infra-estruturação. Estas situações adquirem particular relevância na envolvente aos rios Lima, Neiva e Vez com a consolidação da tendência para o povoamento linear difuso, mas também nas áreas envolventes das quatro sedes de concelho: Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, com o alargamento da mancha artificializada;

A ambiguidade nas áreas de fronteira dos concelhos em torno da definição dos espaços naturais, agrícolas e florestais. Esta situação traduz-se num enfraquecimento das potencialidades globais de preservação do domínio hídrico, dado que a utilização de diferentes critérios origina diferentes graus de protecção às margens dos cursos de água e inconsistências na definição de usos em espaços contíguos com características semelhantes. Configura-se assim uma clara perda da capacidade de protecção do recurso, sobretudo porque evidencia uma dualidade de critérios entre concelhos vizinhos, quer numa situação montante/jusante quer numa situação margem direita/margem esquerda;

As pressões de uso do solo e de utilizações do domínio hídrico incompatíveis com a conservação e reabilitação de alguns troços das áreas de maior valor florístico e faunístico.

CAPÍTULO 7 — Situações hidrológicas extremas e de risco

a)

Secas

As duas regiões mais críticas relativamente a secas meteorológicas são as seguintes:

A zona entre Arcos de Valdevez/Ponte da Barca e a barragem do Lindoso e as bacias hidrográficas intermédia e final do rio Castro Laboreiro (vertente sul da serra da Peneda) e intermédia superior do rio Vez, correspondente à que apresenta um maior número de ocorrências de secas, embora sem atender à gravidade;

A foz dos rios Lima, Âncora e Neiva, a região entre Arcos deValdevez/Ponte da Barca e o rio Castro Laboreiro e a bacia hidrográfica intermédia superior do rio Vez, correspondente à que apresenta maior severidade nas secas graves, ainda que apresentem alguma dispersão.

b)

Inundações

Cheias naturais no rio Lima e principais afluentes

No que se refere à região do Plano, a maior contribuição para a formação de cheias naturais excepcionais tem origem no escoamento gerado na parte central da bacia do rio Lima, devido às elevadas precipitações aí registadas e à maior capacidade desta zona para gerar escoamento superfcial. Nas restantes bacias, do Âncora e do Neiva, o regime é nitidamente torrencial, consequência da sua relativamente reduzida dimensão, disposição orográfica e proximidade do oceano.

No que diz respeito às inundações resultantes das cheias nestas bacias, podem distinguir-se duas situações:

Nos troços de montante dos rios, em que os vales são, na sua maioria, encaixados, com margens abruptas e irregulares, a extensão e gravidade das inundações é, de um modo geral, reduzida;

Nos troços de jusante, onde esses rios correm em vales mais ou menos alargados e planos, as inundações são mais extensas e originam, normalmente, prejuízos que podem ser avultados.

Apesar de os rios Lima, Âncora e Neiva e os seus principais afluentes estarem sujeitos, frequentemente, a cheias significativas, o seu impacto não é tão grande como seria de esperar, dado que as suas margens são bastante abruptas em grande parte da sua extensão. Existem, contudo, algumas zonas críticas, onde as cheias provocam interferência com povoações, zonas agrícolas e rede viária, destacando-se, pela sua importância, o troço final do rio Lima, onde este corre num vale bastante alargado e plano.

As zonas críticas identificadas ao longo dos vales destas linhas de água são as seguintes:

a)

Povoações - zona ribeirinha da cidade de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez;

b)

Zonas agrícolas - destacam-se, pela sua importância, os campos marginais ao rio Lima localizados essencialmente a jusante de Ponte de Lima. A sua aptidão agrícola é elevada, sendo presentemente ocupadas por pastagens permanentes, culturas de Verão (milho) e prados de Inverno. A principal causa dos prejuízos causados nestas áreas ficam a dever-se principalmente à deficiente drenagem dos campos, que, mesmo para pequenas subidas do rio, torna impraticável a actividade agrícola durante longos períodos;

c)

Rede viária - não são de assinalar prejuízos avultados no que diz respeito aos efeitos das cheias na rede viária. No entanto, podem ficar temporariamente cortadas algumas vias de comunicação de âmbito local, principalmente no interior das povoações mais afectadas.

Para o aproveitamento do potencial energético da bacia hidrográfica do Lima foram construídos alguns empreendimentos (Touvedo e Alto Lindoso, em território português, Salas e Conchas em território espanhol) cujas albufeiras têm uma capacidade de armazenamento significativa, podendo ser condicionantes na formação e propagação das cheias. Os estudos relativos aos projectos destes aproveitamentos, bem como os resultados da respectiva exploração, permitem concluir que, em território nacional, a barragem de Alto Lindoso poderá diminuir a frequência de ocorrência de algumas cheias, principalmente as de menor período de retorno e ou aquelas que ocorram no início dos períodos húmidos, altura em que é expectável que a capacidade de encaixe da albufeira seja menor.

As zonas situadas imediatamente a jusante das duas barragens existentes no troço nacional do Lima, Alto Lindoso e Touvedo, podem igualmente ser consideradas como zonas críticas, devido aos efeitos da macroturbulência, associadas às descargas dos caudais de cheia.

Cheias artificiais

Para além dos efeitos decorrentes da exploração dos aproveitamentos aquando da ocorrência de cheias naturais, a existência de uma barragem implica sempre um risco potencial associado quer ao simples incidente de exploração quer à ruptura total ou parcial da própria estrutura. Estes acidentes estão na origem de ondas de cheia (cheias artificiais) que, pelo seu grau de imprevisibilidade e pela possibilidade de criar uma frente de onda abrupta de rápida propagação para jusante, adquirem um elevado poder destrutivo, tornando zonas críticas de inundação extensas zonas de vale a jusante das barragens. Contudo, a probabilidade de ocorrência destas cheias pode actualmente ser considerada muito reduzida em resultado da grande evolução dos métodos de cálculo, processos construtivos e sistemas de observação e controlo dessas infra-estruturas.

Cheias naturais em pequenas linhas de água

Por fim, existem as zonas críticas de inundação provocadas por chuvadas intensas. Estas inundações, de impacte normalmente localizado, ocorrem fundamentalmente nas regiões onde o sistema hídrico é constituído por pequenas bacias hidrográficas, de leitos estreitos e com pequena capacidade de vazão face aos caudais resultantes das precipitações elevadas e concentradas. Esta situação é agravada quando existem elevadas concentrações urbanas, com a consequente alteração das condições hidrológicas das bacias.

c)

Erosão e assoreamento

Grande parte da área de intervenção deste PBH caracteriza-se por situações intermédias em termos de erosão real, aspecto significativo se se considerarem as suas implicações a longo prazo. As zonas mais afectadas são aquelas onde o relevo é mais acidentado (parte oriental e central do Plano).

Na área do Plano não há problemas graves de assoreamento das linhas de água, sendo mais acentuados os problemas decorrentes da tendência erosiva. Para esta situação contribuem a retenção de sedimentos nas albufeiras existentes em Espanha e Portugal e a extracção de inertes.

d)

Poluição acidental com origem em fontes tópicas

No âmbito do PBH do Lima, foram identificadas diversas situações de risco de poluição tópica, associadas quer a fontes fixas quer a fontes móveis, salientando-se, por poderem dar origem a poluição acidental intensa, as seguintes:

a)

Instalações industriais abrangidas pela classe A de licenciamento e ou claramente abrangidas pela Directiva IPPC com produção de efluentes líquidos industriais que podem originar descargas anómalas de elevado grau poluente devidas a erros de manuseamento e a avarias em equipamentos vários das linhas de produção ou das próprias instalações de tratamento;

b)

Instalações de tratamento de resíduos urbanos abrangidos pela Directiva IPPC, devido a avarias dos sistemas de tratamento das águas lixiviantes;

c)

Grandes instalações de tratamento de águas residuais urbanas (> 5000 habitantes residentes) com descargas potencialmente muito poluidoras em caso de graves avarias ou de interrupção de funcionamento;

d)

Atravessamentos rodoviários ou ferroviários importantes com riscos de poluição concentrada e imediata em caso de acidentes que envolvem o derrame para o meio hídrico dos produtos transportados;

e)

Acidentes com o tráfego fluvial nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Sendo as situações descritas de índole acidental ou imprevista, deverá actuar-se de dois modos distintos: com medidas de prevenção e com o recurso a soluções mitigadoras do problema após a sua ocorrência.

e)

Riscos geológicos e geotécnicos

Na região do Plano, as zonas de risco potencial de escorregamento de solos por acção da precipitação intensa estão espalhadas por toda a área em estudo, com predominância no Alto Lima, desde a fronteira com Espanha e Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. Em zonas com declive superior a 10%, em rochas, ao longo das margens da zona alta do rio Lima e seus afluentes, onde os abruptos são muito intensos, podem ocorrer situações potenciais de queda de blocos.

Outras zonas de risco potencial de escorregamento por acção de cheias e ou inundações foram detectadas ao longo das margens do rio Lima entre a fronteira e as proximidades de Ponte da Barca.

A extracção não cuidada de alguns minérios poderá, principalmente em casos de minas abandonadas, ser uma fonte de contaminação dos aquíferos. Em Portugal, nomeadamente na bacia hidrográfica do rio Lima, existem diversas explorações abandonadas de minérios metálicos.

A contaminação dos aquíferos depende da permeabilidade do maciço, sendo mais vulneráveis à contaminação os maciços mais permeáveis.

As situações de erosão costeira e intrusão salina verificam-se na linha de costa da área abrangida pelo PBH do Lima, provocadas pelo avanço lento do mar sobre a área continental, existindo actualmente uma tentativa de reposição das condições naturais. A intrusão salina poderá verificar-se, além da zona costeira, no rio Lima até Ponte de Lima.

f)

Riscos de sobreexploração de aquíferos

Os aquíferos da região do PBH do Lima podem ser agrupados em dois tipos:

Aquíferos de permeabilidade fissural, que ocupam a quase totalidade da região. Estão instalados em formações predominantemente do tipo granítico e xistoso. Incluem-se neste grupo zonas de alteração e formações sedimentares detríticas com espessuras inferiores a 10 m e fácies predominantemente argilosa;

Aquíferos de permeabilidade intersticial instalados em bacias sedimentares em que as condições geológicas e ou geomorfológicas permitiram a formação de depósitos com espessura importante. Neste grupo destacam-se os depósitos aluvionares e de terraço ligados ao rio Lima.

Os recursos hídricos subterrâneos do primeiro grupo são geralmente descontínuos, com transmissividade variável e coeficiente de armazenamento muito baixo. Têm aplicação, apenas, em abastecimentos de importância local. Nestes aquíferos, para além de os caudais disponíveis serem muito baixos, a capacidade de regularização é muito reduzida, e, como consequência, a recarga manifesta-se quase de imediato e induz flutuações de nível piezométrico e ou superfície livre que alcançam 2 m ou 3 m.

As extracções aumentam nos períodos estivais, quer para rega quer para consumo humano. Muitas vezes estas extracções são levadas ao limite, particularmente nas povoações rurais e sua zona envolvente, onde é vulgar praticamente cada proprietário dispor do seu próprio furo de captação. Nestes aquíferos fissurados é difícil falar-se em sobreexploração porque não existe controlo qualitativo ou quantitativo sistemático das extracções e do níveis. Mais que sobreexploração, existe um mau uso do recurso ao nível de práticas de captação, extracção, armazenamento, distribuição e utilização.

Nestas situações, admite-se que, nos limites das extracções que são praticadas, não se terão registado descidas sistemáticas de níveis nem alteração sistemática na composição química da água captada. Se em anos de precipitação anormalmente baixa pode haver esgotamento dos recursos renováveis e algum impacte nas reservas permanentes, o próximo ciclo de recarga, como a experiência o tem demonstrado, repõe a normalidade.

Quanto aos aquíferos do segundo grupo, com transmissividade e coeficiente de armazenamento geralmente altos, estão, normalmente, em ligação hidráulica com as linhas de água adjacentes.

g)

Risco de contaminação das águas minerais naturais e da nascente

As águas de nascente são águas «normais» integradas do ponto de vista da potabilidade, no Decreto-Lei n.º 236/98, mas têm de estar na origem aptas para beber, não podendo sofrer qualquer tratamento posterior.

Na área abrangida pelo PBH do Lima não ocorre nenhum pólo em actividade de água mineral natural ou de nascente. Apenas no limite sul da bacia existe uma pequena área que integra a área de protecção alargada da concessão hidromineral de Eirogo.

De acordo com o referido, ressalta que a gestão dos recursos hídricos subterrâneos não deve deixar de atender às águas minerais naturais e de nascente, dada a sua importância socioeconómica ao nível local e a interdependência com os recursos de água «normal», devendo estes recursos ser devidamente protegidos de modo a evitar a sua contaminação.

CAPÍTULO 8 — Informação e conhecimento dos recursos hídricos

O conhecimento da forma como a água é utilizada e a análise económica das utilizações passam pela disponibilização de informação adequada, abrangendo os vários sistemas e infra-estruturas existentes e respectivos órgãos, reflectindo um cadastro completo, independentemente de a exploração respeitar ao sector das águas de abastecimento ou das águas residuais e seja qual for o grupo de pessoas, entidades ou empresas que delas se utilizam.

A realidade é que na área do Plano os cadastros são incompletos, a informação disponível contém lacunas e deficiências e as próprias autarquias seguem sistemas de informação que não permitem responder adequadamente às necessidades de planeamento e de gestão. Nota-se, no entanto, que estas deficiências diminuem à medida que aumenta o predomínio da perspectiva empresarial por parte das entidades responsáveis pela gestão dos vários sistemas.

Nestes termos, a primeira grande conclusão a retirar recai sobre a necessidade de se melhorarem substancialmente os aspectos da informação, designadamente no que à contabilidade de custos diz respeito, criando sistemas mais ambiciosos que passam pela assunção da necessidade de criação de cadastros para controlo dos investimentos e fazendo prevalecer na gestão a óptica das várias fases operacionais da exploração dos sistemas, visando uma repartição equitativa dos custos entre os vários utilizadores.

PARTE III — Definição de objectivos

Considerações preliminares

A definição de objectivos dos PBH é, certamente, a mais importante neste processo de planeamento, uma vez que é nesta fase que deverão ser enunciados os grandes objectivos e opções que orientarão as políticas de gestão dos recursos hídricos nos horizontes do plano.

É também, sem dúvida, a fase mais complexa porque, para além de ter de assegurar a satisfação das carências ainda existentes a vários níveis e a requalificação e protecção dos recursos hídricos, tem de assegurar a criação de condições para atingir aqueles objectivos.

Como primeiro objectivo estratégico dos PBH, elege-se a necessidade de ser promovida uma cuidada reflexão, visando a reforma do sistema de gestão da água.

Com efeito, face a alguma dispersão e complexidade da legislação em vigor, impõem-se uma tentativa de codificação e racionalização dos diversos diplomas e a simplificação da tramitação procedimental. Também o quadro institucional deverá ser revisto, reorganizado e adaptado às exigências do quadro normativo.

A concretização do objectivo estratégico acima referido constituirá o indispensável suporte para que os objectivos propostos possam ser efectivamente alcançados e a garantia de que estes planos - de primeira geração - podem constituir-se como verdadeiros instrumentos de mudança.

Na elaboração do presente Plano, foi desenvolvido um quadro de possíveis cenários prospectivos de evolução da economia portuguesa e a sua interpretação em termos de implicações na utilização da água na área do Plano do Lima.

Definido o quadro estrutural da economia portuguesa, consubstanciado em dois cenários suficientemente centrados e possíveis imagens finais (horizonte 2020), foi equacionado o desenvolvimento socioeconómico ao nível conjuntural entre o ponto de partida e os pontos de chegada cenarizados.

A metodologia consistiu em determinar os possíveis caminhos que os actuais planos indiciam, tendo por base o enquadramento estrutural do País e tendo em atenção as orientações estratégicas apresentadas nos documentos oficiais para o espaço temporal 2000-2006 (horizonte 2006) e os cenários de desenvolvimento da conjuntura macroeconómica.

As tendências de desenvolvimento sectoriais, agrícola, industrial e de serviços foram associadas às tendências de evolução demográfica em coerência com os cenários de crescimento da economia portuguesa ao nível conjuntural.

Os cenários de desenvolvimento agrícola, nomeadamente ao nível dos regadios, e a política de gestão de recursos hídricos, ao nível de taxas de captação e taxas de rejeição e relativamente aos sistemas de incentivos ao investimento privado, foram também variáveis que reflectiram as opções estratégicas alternativas.

Tendo como pano de fundo este contexto e atendendo aos objectivos fundamentais da política de gestão dos recursos hídricos, apresentados no ponto anterior, definiu-se, no âmbito do Plano do Lima, para cada uma das 10 áreas temáticas já referidas, o conjunto de objectivos estratégicos e operacionais tendo em vista a resolução dos problemas diagnosticados e as necessárias alterações estruturais para uma correcta política de gestão dos recursos hídricos.

Para cada área temática, foram definidos os objectivos estratégicos que materializam as principais linhas que se propõe que sejam seguidas para a implementação do Plano. A estes correspondem os subprogramas e os projectos que os integram, que se consideram necessários para atingir aqueles objectivos.

De um modo geral, os objectivos estratégicos desdobram-se e são suportados por conjuntos de objectivos operacionais, estes directamente relacionados com os projectos a desenvolver.

No domínio dos objectivos operacionais, são considerados objectivos básicos todos aqueles através dos quais se procura:

i)

Assegurar o cumprimento da legislação nacional e comunitária e a implementação e cumprimento da recente Convenção Luso-Espanhola;

ii) Resolver as carências, em termos de abastecimento de água e protecção dos meios hídricos; e

iii) Minimizar os efeitos das cheias, das secas e de eventuais acidentes de poluição.

Os restantes objectivos são considerados complementares, podendo em alguns casos assumir-se como específicos, de determinada matéria.

Nos capítulos subsequentes, referem-se sumariamente os aspectos mais significativos em relação a cada uma das áreas temáticas abordadas, evidenciando-se os respectivos objectivos estratégicos e listando-se os objectivos operacionais que consubstanciam aqueles.

No que se refere aos horizontes do Plano, foram tomados como referência os anos 2006, 2012 e 2020, considerando-se de curto prazo os objectivos que devem ser alcançados até 2006, beneficiando eventualmente da vigência do 3.º Quadro Comunitário de Apoio. De médio/longo prazo serão os objectivos cuja concretização não deixará de ultrapassar o ano 2006, podendo mesmo estender-se até ao horizonte limite do Plano (2020).

CAPÍTULO 1 — Protecção das águas e controlo da poluição

a)

Principais problemas identificados

No âmbito desta área temática, são considerados básicos e de curto prazo todos os objectivos que visam:

A resolução de carências em matéria de drenagem e tratamento de efluentes;

O cumprimento da legislação nacional e comunitária relativa à qualidade e protecção dos meios hídricos;

A minimização dos efeitos de eventuais acidentes de poluição.

A área do PBH do Lima apresenta uma situação variada no que respeita às carências em termos de infra-estruturas de saneamento básico, verificando-se que as áreas mais urbanizadas dispõem de sistemas de drenagem e tratamento, embora com variados problemas de funcionamento, enquanto as áreas de ocupação dispersa e de cariz mais rural não dispõem praticamente de qualquer sistema público.

Quanto ao estado de funcionamento dos sistemas e, sobretudo, das instalações de tratamento, verifica-se uma situação também preocupante, podendo concluir-se, com base nos dados disponíveis, que todas as instalações de tratamento existentes deverão ser remodeladas, ampliadas ou substituídas.

Neste enquadramento, não se prevê que subsistam problemas dignos de registo no que respeita à poluição de origem industrial na bacia hidrográfica do rio Lima, com excepção do caso do sector da produção de azeite, onde os sistemas de tratamento ainda são muito incipientes, não sendo efectuado qualquer tipo de autocontrolo.

Quanto à poluição difusa de origem agrícola, verificam-se alguns problemas que indiciam o uso excessivo de adubação, designadamente nos concelhos de Viana do Castelo e de Ponte de Lima.

No que se refere à qualidade da água em geral, foram identificados diferentes tipos de situações:

Carências várias no abastecimento de água às populações;

Problemas de qualidade da água no estuário do Lima e zona costeira adjacente;

Albufeiras em adiantado estado de eutrofização;

Meios hídricos em que a má qualidade da água pode afectar a vida de espécies ou ecossistemas de interesse para a conservação da natureza.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

O estabelecimento desses objectivos - que tomou como pressuposto a não alteração do quadro legal aplicável, mesmo que eventualmente desajustado das realidades geográficas ou socioeconómicas da área do Plano do Lima - foi estruturado com base nos critérios de:

Dar carácter prioritário à resolução das carências ou disfunções ambientais que possam constituir violação de disposições legais aplicáveis;

Perspectivar simultaneamente, no âmbito dos objectivos de curto prazo, acções para:

Eliminação de disfunções ambientais graves, com destaque para as que possam estar associadas a riscos para a saúde pública;

Protecção de recursos hídricos de interesse estratégico para utilizações actuais ou futuras e de boa qualidade;

Controlo e atenuação de riscos associados a fontes de poluição específicas e a riscos de poluição acidental;

Aprofundar o conhecimento da situação relativamente aos meios hídricos e às fontes de poluição.

Tendo presentes os problemas existentes e os princípios que devem nortear uma adequada gestão dos recursos hídricos, estabeleceram-se, para esta área, os seguintes objectivos estratégicos:

1) Resolver as carências e atenuar as disfunções ambientais actuais associadas à qualidade dos meios hídricos, resultantes da necessidade da legislação nacional e comunitária e de compromissos internacionais aplicáveis;

2) Resolver outras carências e atenuar outras disfunções ambientais actuais associadas à qualidade dos meios hídricos;

3) Adaptar as infra-estruturas associadas à despoluição dos meios hídricos e os respectivos meios de controlo à realidade resultante do desenvolvimento socioeconómico e à necessidade de melhoria progressiva da qualidade da água;

4) Proteger e valorizar meios hídricos de especial interesse, com destaque para as origens destinadas ao consumo humano;

5) Caracterizar, controlar e prevenir os riscos de poluição dos meios hídricos;

6) Aprofundar o conhecimento relativo a situações cuja especificidade as torna relevantes no âmbito da qualidade da água;

7) Desenvolver e ou aperfeiçoar sistemas de recolha, armazenamento e tratamento de dados sobre aspectos específicos relevantes em relação aos meios hídricos.

Estes objectivos estratégicos foram desagregados em objectivos operacionais, que se apresentam na tabela III-1, tendo em conta as especificidades e as particularidades quer da área do Plano quer de cada um dos temas abordados:

TABELA III-1

Objectivos operacionais da protecção das águas e controlo da poluição

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - garantir a qualidade do meio hídrico em função dos usos:

Garantir a qualidade da água nas origens para os diferentes usos, designadamente para consumo humano;

Assegurar o nível de atendimento nos sistemas de drenagem e tratamento dos efluentes, nomeadamente os domésticos, com soluções técnica e ambientalmente adequadas concebidas de acordo com a dimensão dos aglomerados, com as infra-estruturas já existentes e com as características do meio receptor;

Promover a recuperação e o controlo da qualidade dos meios hídricos superficiais e subterrâneos, no cumprimento da legislação nacional e comunitária, nomeadamente através do tratamento e da redução das cargas poluentes e da poluição difusa.

CAPÍTULO 2 — Gestão da procura. Abastecimento de água às populações e actividades económicas

a)

Principais problemas identificados

Neste âmbito, a resolução das carências de abastecimento ainda existentes na área do Plano, o cumprimento de algumas disposições legislativas respeitantes à qualidade e tratamento da água fornecida e ao licenciamento ou concessão das utilizações do domínio hídrico são objectivos básicos de curto prazo, a atingir até ao horizonte de 2006, embora alguns, pela sua natureza, possam prolongar-se até aos restantes horizontes do Plano para plena concretização.

Nesta área assumem também importância alguns objectivos considerados como complementares, designadamente no âmbito dos níveis de atendimento das populações e de uma maior eficiência na utilização dos recursos hídricos no sector da agricultura.

Apesar de nos últimos 25 anos as condições de abastecimento de água às populações terem tido uma melhoria acentuada, a área do PBH do Lima continua a ser uma das zonas do País com maiores carências neste domínio. Sendo de salientar que a cobertura média em termos de redes de distribuição de água é de apenas 61% da população residente servida por redes de distribuição de água, sendo de cerca de 44% a percentagem abastecida sem qualquer tipo de tratamento.

No que se refere especificamente à resolução de carências no abastecimento às populações, o Plano de Desenvolvimento Regional para o período de 2000-2006 definiu como objectivo básico para o País o de se atingirem 95% da população servida com água potável no domicílio, a que se junta o objectivo adicional de cada sistema dever servir pelo menos 95% dos efectivos populacionais da correspondente área de atendimento.

Para poder assegurar a concretização eficiente desse e de outros objectivos relativos à drenagem e tratamento das águas residuais, o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território apresentou em Abril de 2000 o Plano Estratégico de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais (PEAASAR) (2002-2006).

O modelo de intervenção proposto fundamenta-se na necessidade de desenvolver os chamados sistemas plurimunicipais, que são sistemas de abastecimento de água e ou de saneamento de águas residuais que servem mais de um município, constituindo o conjunto destes um todo com continuidade territorial. Por outro lado, são privilegiadas as formas de gestão empresarial, considerando-se que o tipo particular de gestão a implementar constitui matéria sujeita a apreciação, caso a caso, pelos municípios envolvidos.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

Os objectivos a estabelecer em matéria de abastecimento de água resultam dos problemas detectados no diagnóstico da situação de referência e estão em harmonia com os objectivos gerais definidos para o País, devendo as medidas a propor ser coerentes com o PEAASAR (2000-2006).

A adopção de soluções integradas preconizado pelo PEAASAR tem diversas vertentes, que apontam no sentido do aumento da eficácia e da rentabilidade, nomeadamente:

Integração ao nível da gestão, concretizada através do modelo dos sistemas plurimunicipais;

Integração dos dois ramos do ciclo urbano da água (abastecimento de água e saneamento das águas residuais);

Integração territorial através da redução das origens de água;

Integração de recursos hídricos superficiais e subterrâneos;

Integração dos usos da água, materializada nos aproveitamentos de fins múltiplos.

Quanto aos regadios da área do PBH do Lima, tem-se verificado uma baixa eficiência na utilização dos recursos hídricos, mais significativa naqueles onde se pratica a rega por gravidade e nos de construção mais antiga.

As perdas que ocorrem são função quer dos métodos e tecnologias de rega quer dos processos de adução e distribuição da água, bem como dos sistemas de controlo e regulação dos caudais.

Neste quadro, define-se como objectivo geral na utilização da água para a agricultura o progressivo aumento das taxas de eficiência.

Outros problemas ligados, em particular, ao regadio público prendem-se com as reduzidas taxas de adesão das áreas equipadas e com o tipo de equipamento destinado à rega.

Considerados os diversos problemas identificados, em termos do abastecimento de água às populações e às actividades económicas, definem-se como objectivos estratégicos os seguintes:

1) Resolver carências de abastecimento, garantido o fornecimento de água a toda a população e à indústria;

2) Melhorar a qualidade do serviço;

3) Adoptar solução integradas de abastecimento e utilizações;

4) Aumentar a eficiência da utilização da água para rega;

5) Melhorar o aproveitamento das áreas de rega e a garantia de recursos hídricos.

Outros objectivos de carácter mais genérico, mas com tratamento em outras áreas temáticas, podem ainda ser referidos, designadamente:

Garantir a sustentabilidade económica e financeira do sector;

Promover a valorização dos recursos humanos ligados à gestão e condução dos sistemas;

Encorajar a participação dos utilizadores na gestão da procura e dos sistemas.

Os objectivos estratégicos integram diversos objectivos operacionais, apresentados na tabela III-2:

TABELA III-2

Objectivos operacionais da gestão da procura. Abastecimento de água às populações e actividades económicas

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - assegurar uma gestão racional da procura de água em função dos recursos disponíveis e das perspectivas socioeconómicas:

Assegurar a gestão sustentável e integrada das origens subterrâneas e superficiais;

Assegurar a quantidade de água necessária na origem, visando o adequado nível de atendimento no abastecimento às populações e o desenvolvimento das actividades económicas;

Promover a conservação dos recursos hídricos, nomeadamente através da redução das perdas nos sistemas ou da reutilização da água.

CAPÍTULO 3 — Protecção da natureza

a)

Principais problemas identificados

No domínio da protecção da natureza e no que directamente se relaciona com os recursos hídricos, identificaram-se problemas de degradação, mais ou menos intensa, ao nível da rede hidrográfica em geral (sistemas lóticos), dos sistemas lênticos e do estuário do Lima, a que se associa a inexistência de qualquer estudo aprofundado sobre caudais ecológicos.

Nesse âmbito, os sítios relevantes da Lista Nacional de Sítios, designados ao abrigo da directiva relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e flora selvagens (Directiva n.º 92/43/CEE) e às zonas de protecção especial, da directiva relativa à conservação das aves selvagens (Directiva n.º 79/409/CEE), constituíram uma base referencial para o estabelecimento dos objectivos.

No que se refere aos sistemas lóticos, são de salientar:

Segmentos inseridos em áreas de elevada diversidade florística ou faunística, onde os impactes antropogéneos não são ainda de magnitude a afectar de modo significativo os biótopos e a qualidade das águas superficiais;

Segmentos sujeitos a impactes humanos significativos em zonas de elevada biodiversidade potencial, pelo que neles se torna necessário prever medidas de restauração.

No que se refere aos sistemas lênticos, de acordo com o Decreto-Lei n.º 152/97, que transpõe para o direito interno a Directiva n.º 71/271/CEE, pode considerar-se que todas albufeiras da bacia hidrográfica do Lima são sensíveis, por se revelarem eutróficas.

Quanto ao estuário do Lima, foi estabelecido como objectivo único, de médio/longo prazo, a protecção de áreas que ainda apresentam interesse conservacionista, nomeadamente na margem sul do estuário.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

Consideram-se como objectivos de curto prazo aqueles que visam a protecção de determinadas áreas ou troços de linhas de água e de médio/longo prazo aqueles que propõem a reabilitação de determinadas áreas ou sistemas onde a acção antrópica é responsável por uma já elevada degradação que importa travar, com vista à sua recuperação. Incluem-se nestes últimos os que especificamente dizem respeito ao estuário do rio Lima.

Constitui, assim, objectivo de curto prazo a definição de medidas de ordenamento nos troços caracterizados pelo seu interesse em termos de biodiversidade e presença de espécies protegidas pelas convenções internacionais e, simultaneamente, por se apresentarem ainda relativamente próximos de condições pristinas. Estão nesta situação o sector do rio Lima entre a fronteira e Ponte da Barca, o rio Âncora e o rio Estorãos (em todo o curso de água).

Por outro lado, constitui objectivo de médio/longo prazo a implementação de adequadas medidas de mitigação de impactes e de recuperação dos habitats no conjunto de sistemas lóticos identificados como possuindo elevada biodiversidade potencial e, também, em sistemas situados em zonas com presença de espécies protegidas pelas convenções internacionais ou em zonas designadas para a protecção de habitats ou de espécies, mas onde as actividades humanas produziram já uma elevada degradação.

Quanto aos sistemas lênticos, o objectivo será o de alcançar a médio/longo prazo o grau de mesotrofia de todas as albufeiras, e para o estuário do rio Lima foi estabelecido como objectivo único de médio/longo prazo a recuperação e protecção das áreas que ainda apresentam interesse conservacionista. Estão nesta situação o rio Lima entre Ponte da Barca e o estuário e o rio Vez em toda a extensão.

Finalmente, constitui também objectivo de médio/longo prazo a fixação dos caudais ambientais (caudais ecológicos) para diferentes linhas de água da área do Plano.

Em conclusão, no âmbito da protecção da natureza, definem-se como objectivos estratégicos os seguintes:

1) Estabelecer medidas de protecção dos meios aquáticos e ribeirinhos com interesse ecológico e que ainda se apresentam actualmente relativamente próximos da situação pristina;

2) Recuperar os habitats e as condições de suporte das espécies que conferem importâncias a diversos troços de linhas de água e albufeiras identificadas como área de elevada biodiversidade potencial;

3) Recuperar e valorizar os habitats das áreas do estuário identificadas como de interesse conservacionista;

4) Estabelecer caudais ambientais para as diferentes linhas de água em função da sua importância e de uma prévia e cuidada definição de critérios.

Com excepção do último, todos os restantes objectivos implicam a concretização de diversos objectivos de melhoria da qualidade da água e de controlo da poluição e impõem ainda condicionamentos em termos de ordenamento territorial. Na tabela III-3 listam-se os objectivos operacionais preconizados neste âmbito:

TABELA III-3

Objectivos operacionais da protecção da natureza

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - assegurar a protecção dos meios aquáticos e ribeirinhos com interesse ecológico, a protecção e recuperação de habitats e as condições de suporte das espécies nos meios hídricos e no estuário:

Promover a salvaguarda da qualidade ecológica dos sistemas hídricos e dos ecossistemas, assegurando o bom estado físico e químico e a qualidade biológica, nomeadamente através da integração da componente biótica nos critérios de gestão da qualidade da água;

Promover a definição de caudais ambientais e evitar a excessiva artificialização do regime hidrológico, visando garantir a manutenção dos sistemas aquáticos, fluviais, estuarinos e costeiros;

Promover a preservação e ou recuperação de troços de especial interesse ambiental e paisagístico, das espécies e dos habitats protegidos pela legislação nacional e comunitária e, nomeadamente, das áreas classificadas, das galerias ripícolas e do estuário.

CAPÍTULO 4 — Protecção contra situações hidrológicas extremas e acidentes de poluição

a)

Principais problemas identificados

Nesta área temática, identificou-se um conjunto diversificado de problemas relacionados com a ocorrência de secas, de cheias, naturais ou provocadas por eventuais roturas de barragens, e de situações acidentais de poluição hídrica.

A resolução ou mitigação da generalidade dos problemas passa, numa primeira fase, pela realização de estudos e planos específicos que permitirão colmatar as lacunas de conhecimento identificadas e que condicionam a aplicação de medidas operacionais neste âmbito, designadamente:

Inexistência de planos de contingência para situações de seca adaptados a cada região da área do Plano;

Inexistência de mapas de inundação relacionados com as zonas de protecção e ou zonas adjacentes, por forma a dar cumprimento ao disposto no Decreto-Lei n.º 89/87, de 26 de Fevereiro;

Insuficiente levantamento da situação existente incluindo a delimitação dos leitos de cheia e a caracterização das infra-estruturas ou obstruções que interferem com o domínio hídrico, designadamente as que possam ser causadoras de estrangulamentos nas linhas de água e susceptíveis de causar problemas de inundação nas pequenas linhas de água;

Situações de inundação nas margens do rio Lima passíveis de ser mitigadas com a implementação de medidas estruturais ou não estruturais, insuficientemente estudadas;

Não existência de estudos de ondas de inundação provocadas por eventuais acidentes em relação a muitas das barragens da área do Plano;

Inexistência de planos de emergência para situações de contaminação dos meios hídricos.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

Definiram-se como objectivos estratégicos cujas medidas de concretização exigem a prévia realização de estudos com o pormenor e profundidade adequados às diferentes situações os seguintes:

1) Preparação de planos de contigência para situações de seca adaptados a cada região;

2) Prevenção contra imundações, entendia como o estudo e a implementação de medidas no sentido de evitar o aparecimento de novas zonas críticas de inundação ou reduzir (ou mesmo eliminar) algumas dessas zonas actualmente existentes;

3) Controlo das cheias naturais no curso principal do rio Lima, entendido como o desenvolvimento de estudos no sentido de analisar a possibilidade de domínio das cheias no curso principal do Lima;

4) Protecção em caso de ocorrência de cheias, naturais e artificiais, entendido como o estudo e a implementação de medidas no sentido de proteger as pessoas e os bens situados em zonas críticas de inundação;

5) Estabelecimento de planos de emergência para situações de contaminação dos meios hídricos.

Dos objectivos enunciados merece especial referência a necessidade de estudar e implementar planos de contingência para as situações de seca e planos de emergência para as situações de inundação e de acidentes de poluição.

Os objectivos estratégicos indicados desdobram-se ainda em diversos objectivos operacionais (tabela III-4):

TABELA III-4

Protecção contra situações hidrológicas extremas e acidentes de poluição

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - promover a minimização dos efeitos económicos e sociais das secas e das cheias, no caso de elas ocorrerem, e dos riscos de acidentes de poluição:

Promover a adequação das medidas de gestão em função das disponibilidades de água, impondo restrições ao fornecimento em situação de seca e promovendo a racionalização dos consumos através de planos de contingência;

Promover o ordenamento das áreas ribeirinhas sujeitas a inundações e o estabelecimento de cartas de risco de inundação e promover a definição de critérios de gestão, a regularização fluvial e a conservação da rede hidrográfica, visando a minimização dos prejuízos;

Promover o estabelecimento de planos de emergência em situação de poluição acidental, visando a minimização dos efeitos.

CAPÍTULO 5 — Valorização económica e social dos recursos hídricos

a)

Objectivos estratégicos e operacionais

A valorização dos recursos hídricos visa essencialmente o acréscimo da valia económica e social das actividades directamente dependentes da utilização dos recursos hídricos.

Neste âmbito, destacam-se alguns objectivos operacionais relacionados com o eventual aproveitamento da albufeira do Touvedo como origem de água para abastecimento, a monitorização da qualidade da água para recreio e lazer, a valorização do património histórico e da qualidade paisagística e a demarcação e protecção de águas subterrâneas de grande valor económico.

Pode assim considerar-se como grande objectivo estratégico nesta área o aproveitamento racional dos recursos hídricos para os mais diversos fins, compatibilizando, de uma forma integradora:

As diferentes utilizações da água e do domínio hídrico;

O desenvolvimento socioeconómico do território;

A protecção do ambiente e a conservação dos valores naturais.

Na tabela III-5 listam-se os diferentes objectivos operacionais neste âmbito:

TABELA III-5

Valorização económica e social dos recursos hídricos

(ver tabela no documento original)

b)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - potenciar a valorização social e económica da utilização dos recursos:

Promover a designação das massas de água em função dos respectivos usos, nomeadamente as correspondentes às principais origens de água para produção de água potável existentes ou planeadas;

Promover a identificação dos locais para uso balnear ou prática de actividades de recreio, para a pesca ou navegação, para extracção de inertes e outras actividades, desde que não provoquem a degradação das condições ambientais;

Promover a valorização económica dos recursos hídricos, privilegiando os empreendimentos de fins múltiplos.

CAPÍTULO 6 — Articulação do ordenamento do território com o ordenamento do domínio hídrico

a)

Principais problemas identificados

Verificam-se em alguns locais da região do Plano do Lima situações preocupantes relacionadas com usos do solo conflituantes com a preservação da qualidade e quantidade dos recursos hídricos, nomeadamente:

A eutrofização das albufeiras do Alto Lindoso e do Touvedo, relacionada com usos do solo na sua envolvente;

A expansão urbana, actual e programada no âmbito dos PDM, que coloca diversos problemas ao equilíbrio dos recursos naturais, que se traduzem na artificialização das margens, no aumento dos pontos de conflito com os recursos hídricos e na impermeabilização e contaminação de áreas de recarga de aquíferos;

A existência de ambiguidade nas áreas de fronteira, na maioria dos concelhos, em torno da definição dos espaços naturais, agrícolas e florestais. Esta situação traduz-se num enfraquecimento das potencialidades globais de preservação do domínio hídrico, dado que a utilização de diferentes critérios origina diferentes graus de protecção às margens dos cursos de água e inconsistências na definição de usos em espaços contíguos com características semelhantes;

As áreas de maior valor florístico e faunístico encontram-se, em alguns troços, sujeitas a pressões de uso do solo e de utilizações do domínio hídrico incompatíveis com a sua conservação e ou recuperação.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

O carácter transversal do ordenamento territorial relativamente às diferentes matérias que o Plano aborda e o inegável contributo que o ordenamento territorial poderá proporcionar para uma correcta gestão dos recursos hídricos implicam a necessidade de articular devidamente o ordenamento do território com o do domínio hídrico.

Enunciam-se, assim, os objectivos estratégicos definidos para esta área:

1) Definição de condicionantes ao uso do solo a serem vertidas nos planos municipais de ordenamento do território e nos planos especiais de ordenamento do território;

2) Definição de princípios de ordenamento e gestão do domínio hídrico.

Para a concretização destes objectivos concorre a concretização de um conjunto de objectivos operacionais, que se listam na tabela III-6:

TABELA III-6

Objectivos operacionais da articulação do ordenamento do território com o ordenamento do domínio hídrico

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - preservar as áreas do domínio hídrico:

Promover o estabelecimento de condicionamentos aos usos do solo, às actividades nas albufeiras e nos troços em que o uso não seja compatível com os objectivos de protecção e valorização ambiental dos recursos;

Promover a definição de directrizes de ordenamento visando a protecção do domínio hídrico, a reabilitação e renaturalização dos leitos e margens e, de uma forma mais geral, das galerias ripícolas, dos troços mais degradados e do estuário;

Assegurar a elaboração e a adequação, tendo em conta as orientações decorrentes do Plano de Bacia, dos planos de ordenamento das albufeiras (POA) existentes e previstos, dos planos de ordenamento da orla costeira (POOC) e dos planos de ordenamento das áreas protegidas (POAP).

CAPÍTULO 7 — Quadros normativo e institucional

a)

Principais problemas identificados

A análise dos quadros normativo e institucional, mais directa ou indirectamente ligados aos recursos hídricos, permite concluir pela existência de algumas disfuncionalidades.

Tais disfuncionalidades podem genericamente caracterizar-se por:

Alguma dispersão legislativa e falta de adequação dos novos procedimentos às estruturas existentes;

Procedimentos administrativos demasiado complexos;

Quadro institucional desajustado à articulação entre todas as entidades envolvidas em procedimentos pluriparticipados relacionados com a gestão e utilização do domínio hídrico.

b)

Objectivos estratégicos e operacionais

Para procurar dar resposta aos problemas atrás enunciados, consideram-se um conjunto de objectivos estratégicos de carácter normativo e institucional que se referem sumariamente:

Racionalização e simplificação dos procedimentos administrativos, facilitando, desse modo, a sua apreensão e plena implementação pelas instituições envolvidas;

Optimização das estruturas das DRAOT, capacitando-as para o pleno exercício das suas competências;

Articular as competências das DRAOT com as de outras pessoas colectivas públicas de base territorial, de modo a evitar duplicação e deserção de competências;

Criar condições para a efectiva implementação da recente Convenção Luso-Espanhola.

Na tabela III-7 lista-se o conjunto de objectivos operacionais neste âmbito:

TABELA III-7

Objectivos operacionais dos quadros normativo e institucional

(ver tabela no documento original)

c)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - racionalizar e optimizar o quadro normativo e institucional vigente:

Assegurar a simplificação e racionalização dos processos de gestão da água e os necessários ajustamentos do quadro institucional;

Promover a melhoria da coordenação intersectorial e institucional, nomeadamente nos empreendimentos de fins múltiplos;

Promover a gestão integrada do estuário, visando a sua valorização social, económica e ambiental;

Assegurar a implementação da Convenção Luso-Espanhola e da directiva quadro.

CAPÍTULO 8 — Sistema económico-financeiro

a)

Objectivos estratégicos e operacionais

O sistema financeiro associado à gestão dos recursos hídricos terá de se constituir como meio privilegiado de fazer aproximar o custo privado da produção ao seu verdadeiro custo social.

No âmbito económico-financeiro, o grande objectivo estratégico consiste em gerir os recursos hídricos como um bem económico de natureza pública, segundo os princípios da equidade, eficiência e cumprimento das leis da concorrência.

De acordo com os princípios atrás enunciados, estabeleceram-se os objectivos operacionais - todos de médio/longo prazo, sem prejuízo de se iniciar a sua prossecução imediatamente após a entrada em vigor do presente Plano - que se apresentam na tabela III-8:

TABELA III-8

Objectivos operacionais para o sistema económico-financeiro

(ver tabela no documento original)

b)

Objectivos fundamentais de políticas de gestão dos recursos hídricos

Objectivo - promover a sustentabilidade económica e financeira dos sistemas e a utilização racional dos recursos e do meio hídrico:

Promover a aplicação dos princípios utilizador-pagador e poluidor-pagador.

CAPÍTULO 9 — Informação e participação das populações

a)

Objectivos estratégicos e operacionais

Estabelecem-se como objectivos estratégicos informar e sensibilizar as populações em relação aos problemas do ambiente e dar formação adequada e especializada ao pessoal que opera com os sistemas de saneamento básico.

Na tabela III-9 listam-se os diferentes objectivos operacionais adoptados neste âmbito:

TABELA III-9

Objectivos operacionais para a informação e participação das populações

(ver tabela no documento original)

b)

Objectivos fundamentais para a informação e participação das populações

Objectivo - promover a participação das populações na protecção dos recursos e do meio hídrico:

Assegurar a disponibilização de informação tratada de forma adequada para a população e os utilizadores;

Conceber e apoiar programas de formação de técnicos envolvidos na gestão de recursos hídricos;

Dinamizar campanhas e programas de sensibilização dos agentes consumidores e utilizadores visando a conservação da água e a protecção dos meios hídricos.

CAPÍTULO 10 — Aprofundamento do conhecimento dos recursos hídricos

a)

Objectivos estratégicos e operacionais

Neste âmbito, enunciam-se os objectivos estratégicos cuja concretização permitirá aprofundar o conhecimento sobre os recursos hídricos da área do Plano do Lima e dispor de informação adequada para análises posteriores ou acompanhamento do Plano, colmatando assim as lacunas detectadas.

Na tabela III-10 listam-se os diferentes objectivos operacionais adoptados neste âmbito:

TABELA III-10

Objectivos operacionais do aprofundamento do conhecimento dos recursos hídricos

(ver tabela no documento original)

b)

Objectivos fundamentais do aprofundamento do conhecimento dos recursos hídricos

Objectivo - aprofundar o conhecimento dos recursos hídricos:

Promover a monitorização do estado quantitativo e qualitativo das massas de água superficiais e subterrâneas;

Promover a obtenção contínua de informação sistemática actualizada relativa à identificação do meio receptor e promover a estruturação e calibração do modelo geral de qualidade da água da bacia portuguesa integrando a poluição pontual e difusa, assim como toda a rede hidrográfica principal, os aquíferos e as albufeiras;

Promover o estudo e a investigação aplicada, criando e mantendo as bases de dados adequadas ao planeamento e à gestão sustentável dos recursos hídricos.

PARTE IV — Estratégias, medidas e programação

CAPÍTULO 1 — Estratégias

Considerações preliminares

Apresentam-se as grandes linhas estratégicas que deverão orientar a gestão dos recursos hídricos da área do PBH do Lima para alcançar os objectivos referidos. Procura-se ainda analisar, de uma forma qualitativa, a incidência e a importância dos programas considerados na consecução das grandes linhas de orientação estratégica.

São 12 as linhas de orientação estratégica consideradas mais relevantes no contexto do presente Plano, tendo as 11 primeiras um carácter sectorial, vertical, e a restante um carácter espacial, horizontal em relação àquelas. Relativamente às 11 linhas estratégicas sectoriais, as 5 primeiras, designadas por linhas estratégicas fundamentais (F.1 a F.5), são condições fundamentais para a prossecução de uma política de desenvolvimento sustentável dos recursos hídricos desta bacia hidrográfica, consistindo as 6 restantes, designadas por linhas estratégicas instrumentais (I.1 a I.6), em orientações instrumentais essenciais para uma concretização racional das 5 primeiras.

Apresentam-se, em seguida, de forma sintética, as 12 linhas estratégicas adoptadas, sendo a sua descrição mais circunstanciada feita no ponto seguinte.

Linhas estratégicas fundamentais

F.1 - Redução das cargas poluentes emitidas para o meio hídrico através de uma estratégia específica para as actividades económicas que constituem fontes de poluição hídrica baseada em planos de acção que visem a eliminação dos incumprimentos legais e que tenham em conta, para cada trecho da rede hidrográfica, a classificação de qualidade da água em função das utilizações.

F.2 - Superação das carências básicas de infra-estruturas através da construção de novas, da reabilitação das existentes e integração do ciclo urbano do abastecimento/rejeição da água.

F.3 - Melhoria da garantia da disponibilidade de recursos hídricos utilizáveis por forma a dar satisfação às necessidades das actividades sociais e económicas através da melhoria da eficiência da utilização da água e da regularização de caudais, tendo em conta como condicionantes a definição de um regime de caudais ambientais e a gestão hídrica na parte espanhola da bacia.

F.4 - Acréscimo da segurança de pessoas e bens relacionada com o meio hídrico através da prevenção e da mitigação de situações de risco do tipo hidrológicas extremas ou acidentais de poluição.

F.5 - Preservação e valorização ambiental do meio hídrico e da paisagem associada através do condicionamento da utilização de recursos ou de zonas a preservar e da definição de uma estratégia específica para a recuperação de ecossistemas.

Linhas estratégicas instrumentais

1.1 - Reforço integrado dos mecanismos que controlam a gestão dos recursos hídricos que implique um acréscimo da sua eficiência e eficácia através do reforço e articulação dos mecanismos relativos aos regimes de planeamento, ordenamento hídrico, licenciamento e económico-financeiro, utilizando abordagens espacialmente integradas e o recurso aos mecanismos do mercado.

1.2 - Reforço da capacidade de intervenção por parte da Administração ao nível regulador, arbitral e fiscalizador em matéria de recursos hídricos através da qualificação dos seus recursos humanos nestas áreas e da transferência para a sociedade civil das tarefas para as quais esta se encontra mais vocacionada (outsourcing), tendo como unidade de planeamento e gestão a bacia hidrográfica.

1.3 - Aumento do conhecimento sobre o sistema de recursos hídricos através da criação e manutenção de um sistema integrado de monitorização do meio hídrico associado a um sistema de informação de recursos hídricos e da realização de estudos aplicados e de investigação nas matérias relacionadas com este sistema onde se detectem mais lacunas informativas ou de conhecimento sistémico, nomeadamente na área da qualidade biológica dos meios hídricos.

1.4 - Reforço da sensibilização e participação da sociedade civil em matéria de recursos hídricos através do lançamento de iniciativas de educação, formação e informação.

1.5 - Melhoria do quadro normativo através da sua harmonização e sistematização num corpo coerente.

1.6 - Avaliação sistemática do Plano através da análise do grau de realização do mesmo e da incidência desta no estado dos recursos hídricos e do meio hídrico da área do Plano.

Linha estratégica espacial

E.1 - Adopção de abordagens de análise, regulamentação e intervenção espacialmente integradas para unidades territoriais específicas, designadamente ao nível das sub-bacias principais e das unidades homogéneas de planeamento definidas neste Plano, tendo em conta as suas especificidades hidrológicas, ambientais ou socioeconómicas.

Nas páginas seguintes apresentam-se quadros com os quais se pretende traduzir qualitativamente as incidências destes objectivos de política (tabela IV-1) e dos programas de medidas que os enquadram (tabela IV-2) na consecução das 11 linhas estratégicas sectoriais.

Finalmente, como a área do Plano apresenta duas regiões com características diversas, as quais justificam a consideração de abordagens diferenciadas, definiu-se uma estratégia espacial, com um carácter diferente das anteriores (espacialmente integrador das estratégias sectoriais), que consistiu na sua divisão em subáreas territoriais cuja especificidade é susceptível de implicar análises e actuações distintas.

Para além das cinco sub-bacias principais, introduziu-se o conceito de unidade homogénea de planeamento (UHP), com base no qual foram definidas duas UHP. Enquanto na repartição da área do Plano em sub-bacias apenas foram tidos em conta aspectos relacionados com a hidrografia da área para os efeitos da avaliação das disponibilidades e dos balanços hídricos, na repartição das duas UHP procurou-se assegurar uma razoável homogeneidade interna dos pontos de vista hidrológico-climático, socioeconómico e da conservação da natureza, certamente mais consistente para os efeitos de planeamento.

TABELA IV-1

Contribuição dos objectivos de política para a consecução das linhas estratégicas sectoriais

(ver tabela no documento original)

TABELA IV-2

Contribuição dos programas de medidas e acções para a consecução das linhas estratégicas sectoriais

(ver tabela no documento original)

a)

Estratégias fundamentais

Redução das cargas poluentes

Esta linha estratégica (F.1) preconiza a redução das cargas poluentes emitidas para o meio hídrico através de uma estratégia específica para as actividades económicas que constituem fontes de poluição hídrica baseada em planos de acção que visem o cumprimento da legislação e que tenham em conta, para cada trecho da rede hidrográfica, a classificação de qualidade da água em função das utilizações.

Os sectores alvo que neste âmbito deverão ser objecto privilegiado de medidas visando reduzir os seus impactes sobre o meio hídrico são a indústria (com maior incidência dos sectores de têxteis, vestuário, couro, madeira, cortiça e agro-alimentares) e a agricultura.

Em qualquer caso, deverá procurar-se sempre que possível privilegiar as medidas que implicam uma redução da poluição na fonte em detrimento do seu tratamento final. No caso das actividades agrícolas, é, inclusivamente, a única alternativa razoável.

De uma forma geral, qualquer sector económico deverá fazer um esforço no sentido da adopção de tecnologias mais recentes conducentes a melhores níveis de eficiência na utilização da água e das matérias-primas cujo ciclo produtivo implique a produção de poluição.

No caso da agricultura, é, além disso, da maior importância a adopção das designadas «boas práticas agrícolas» visando a redução da poluição difusa.

Cabe ainda salientar as lixeiras, que, apesar de na sua maioria já se encontrarem encerradas, ainda constituem focos poluentes, cujo controlo se impõe.

Toda a estratégia de redução da poluição deverá ser desenvolvida de uma forma integrada em relação aos seus inúmeros focos e factores e estar em consonância com os objectivos de ordenamento do solo ou, mais em geral, do território e com os objectivos de qualidade a definir para cada troço da rede hidrográfica em função da sua utilização. De facto, neste âmbito, admite-se que as disfunções mais graves possam ser colmatadas com uma melhor política de ordenamento do território e das utilizações.

Superação das carências básicas de infra-estruturas

Esta linha estratégica (F.2) preconiza a superação das carências básicas de infra-estruturas através da construção de novas, da reabilitação das existentes e da integração do ciclo urbano do abastecimento/rejeição da água.

A justificação desta linha estratégica é suportada pela situação actual da área do Plano do Lima ao nível das infra-estruturas básicas de abastecimento de água e recolha e tratamento de águas residuais. De facto, esta bacia é, ao nível nacional, uma das mais carenciadas no que se refere aos níveis de atendimento na área do saneamento básico.

Estas carências, além de estarem em geral associadas a fracas condições de qualidade de vida das populações, contribuem para uma generalizada degradação da qualidade do ambiente e, em alguns casos, implicam riscos potenciais para a saúde pública.

É de realçar que, além dos baixos valores dos níveis de atendimento referidos, a qualidade do serviço prestado não é satisfatória em muitos dos sistemas instalados, pelas mais diversas razões, em geral relacionadas com insuficiências ao nível da gestão dos sistemas, muitas vezes associadas à falta de dimensão da entidade gestora dos mesmos.

A possibilidade que tem existido, e continuará a existir, pelo menos até ao ano 2006, de realizar grandes investimentos nestes sistemas com fundos estruturais da UE constitui uma conjuntura única para alterar significativamente o referido panorama na área do saneamento básico, de modo que o País alcance nesse período os níveis médios de atendimento da UE, incluindo uma qualidade adequada de serviço.

É, assim, necessário continuar a desenvolver esforços no sentido de uma melhor estruturação do sector, de que a criação do sistema multimunicipal do Minho-Lima é um bom exemplo, com a construção de novos sistemas ou a reabilitação de existentes, de uma forma mais integrada das fases abastecimento/rejeição.

Finalmente, realça-se a importância da criação de condições para que todos os sistemas deste tipo sejam dinamicamente autosuficientes económica e financeiramente a partir do final do actual Quadro Comunitário de Apoio (QCA III), isto é, de 2006.

Melhoria da garantia da disponibilidade de recursos hídricos utilizáveis

Esta linha estratégica (F.3) preconiza a melhoria do nível de garantia da disponibilidade de recursos hídricos utilizáveis, por forma a dar satisfação às necessidades das actividades sociais e económicas através da melhoria da eficiência da utilização da água e da regularização de caudais, tendo em conta como condicionantes a definição de um regime de caudais ambientais e a gestão hídrica na parte espanhola da bacia.

De facto, em algumas regiões da bacia hidrográfica do Lima, sobretudo nas zonas mais interiores, a existência de sistemas de abastecimento de água não garante, só por si, o fornecimento domiciliário às populações nas épocas mais secas, devido aos fracos níveis de garantia de água nas origens, superficiais ou subterrâneas, destes sistemas.

Sem esquecer o esforço, que deve ser permanentemente exercido, no sentido da redução de perdas e da poupança no uso da água, pode considerar-se que a implementação dos sistemas multimunicipais, nomeadamente o do Minho-Lima, contribuirá certamente para ultrapassar decisivamente este tipo de problemas.

Também, no que se refere ao abastecimento de água à agricultura, há problemas, correspondentes a regadios sem os mais adequados níveis de garantia de abastecimento de água, sendo também necessário melhorar as suas origens e aumentar a eficiência da utilização da água através da adopção de técnicas mais modernas.

Os aproveitamentos de fins múltiplos, que importa potenciar e que permitem não só o aumento das disponibilidades hídricas utilizáveis, passíveis de ser aproveitadas como bem de consumo ou factor de produção, como o controlo potencial de situações indesejáveis, estão, como todas as infra-estruturas, condicionados à gestão do domínio hídrico entendido como parte integrante do meio hídrico natural, o qual há que conservar, proteger e valorizar, sendo por isso sempre necessário prever a mitigação dos seus impactos negativos em consonância com estes condicionamentos, numa perspectiva de desenvolvimento sustentável.

Acréscimo da segurança de pessoas e bens

Esta linha estratégica (F.4) preconiza um acréscimo da segurança de pessoas e bens relacionada com o meio hídrico através da prevenção e da mitigação de situações de risco do tipo hidrológicas extremas ou acidentais de poluição.

Sendo impossível eliminar os riscos associados aos processos naturais ou às actividades antrópicas, é necessário geri-los procurando contê-los dentro de limites considerados social, económica e ambientalmente aceitáveis.

A gestão do risco envolve duas vertentes fundamentais: a sua redução através de medidas preventivas e a sua mitigação, no caso da ocorrência de acidentes, quer se trate de situações de cheia, de seca ou de poluição acidental.

É, também, essencial neste âmbito privilegiar as medidas preventivas, a consubstanciar em planos de contingência, planos de ordenamento de leitos de cheia ou em obras de defesa contra cheias ou de reserva de água para fazer face a situações de seca, de modo a reduzir a vulnerabilidade em relação a este tipo de ocorrências.

No caso das cheias e das situações acidentais de poluição é necessário, para além das medidas de prevenção, prever planos de emergência, os quais deverão ter um papel fundamental na mitigação das consequências deste tipo de catástrofes.

Para qualquer das situações de risco deve ainda procurar estabelecer-se uma estreita articulação entre todas as entidades envolvidas na sua prevenção ou mitigação e destas entidades com as populações mais sujeitas às mesmas, nomeadamente no que respeita à realização e aplicação dos planos de contingência e dos planos de emergência.

Preservação e valorização ambiental do meio hídrico e da paisagem associada

Esta linha estratégica (F.5) preconiza a preservação e valorização ambiental do meio hídrico e da paisagem associada através do condicionamento da utilização de recursos ou de zonas a preservar e da definição de uma estratégia específica para a recuperação de ecossistemas.

A bacia hidrográfica do Lima constitui um vasto território que suporta uma elevada diversidade de ecossistemas faunísticos e florísticos, que se traduz em diversas áreas classificadas. Por outro lado, há ecossistemas fora destas áreas protegidas que também é necessário conservar, o que reforça a necessidade de utilizar o ordenamento do território como instrumento fundamental de conservação da natureza, nomeadamente através dos condicionamentos associados aos estatutos da Reserva Ecológica Nacional, do domínio público hídrico, da Reserva Agrícola Nacional, dos planos regionais de ordenamento do território e dos planos directores municipais, os quais devem ser devidamente coordenados ente si, tendo em linha de conta os imperativos da gestão dos recursos hídricos e da conservação da natureza.

A esta vertente da preservação dos ecossistemas existentes, levada a cabo essencialmente pela via de condicionamentos regulamentares à utilização dos recursos ou do território, há, também, que associar um conjunto de medidas de recuperação dos ecossistemas afectados, as quais têm necessariamente de ser devidamente articuladas, dadas as diversas causas que geralmente concorrem para a destruição dos ecossistemas, uma vez que não é consequente qualquer tentativa de recuperação local sem se terem em consideração todos os factores que constituem causas de degradação.

b)

Estratégias instrumentais

Reforço integrado dos mecanismos que controlam a gestão dos recursos hídricos

Esta linha estragégica (I.1) preconiza o reforço integrado dos mecanismos que controlam a gestão dos recursos hídricos reltivos aos regimes de planeamento, ordenamento hídrico, licenciamento e económico-financeiros, utilizando abordagens espacialmente integradas e o recurso dos mecanismos do mercado.

De entre os instrumentos disponíveis, cujos quadros regulamentares devem orientar-se pelos princípios da equidade, eficiência, sustentabilidade ambiental e livre concorrência, destacam-se os seguintes:

Processo permanente de planeamento e planos de bacia hidrográfica;

Normas de ordenamento ambiental e das actividades antrópicas;

Quadro de licenciamento de actividades no domínio hídrico;

Regime económico-financeiro das utilizações do domínio hídrico.

Uma primeira condição de racionalidade para a gestão dos recursos hídricos é a da interiorização por parte da Administração da necessidade de adopção de uma filosofia de planeamento dinâmica, sobretudo no que se refere ao conhecimento e diagnóstico da realidade existente, que periodicamente deve ser reflectida em planos.

Nesta perspectiva, é igualmente de realçar a enorme importância que assumem os mecanismos de ordenamento no controlo, na protecção e na valorização dos recursos naturais e paisagísticos, nomeadamente através da definição de zonas de protecção e de condicionamentos de utilização.

Neste contexto, cabe destacar em particular a necessidade imperiosa de desenvolver um sistema de informação adequadamente sistematizado e permanentemente actualizado, incluindo um cadastro das utilizações e das ocupações do domínio hídrico e um inventário das séries hidrológicas históricas das variáveis quantitativas e qualitativas mais relevantes, suportado num SIG.

Por sua vez, o quadro correspondente ao regime de licenciamento deverá suportar o regime económico-financeiro de utilização do domínio hídrico, isto é, a aplicação dos princípios do utilizador-pagador e do poluidor-pagador.

Na aplicação deste regime, deverá atender-se a dois pressupostos fundamentais:

O carácter público da utilização do domínio hídrico, não devendo por isso admitir-se a internalização privada de valias colectivas nem a externalização de custos individuais;

A necessidade da introdução de critérios de racionalidade económica para uma adequada gestão dos recursos hídricos, através do recurso aos mecanismos de mercado.

É, também, imprescindível para o sucesso da aplicação destes mecanismos o aumento do envolvimento dos sectores económicos e da sociedade civil nestes processos, por forma a garantir quer a consagração do valor económico da água pelos cidadãos quer o desenvolvimento de um mercado da água sem artificialismos que possam distorcer os custos de um bem que, por ter uma valia composta (social, ambiental e económica), nem sempre é fácil de avaliar.

A dificuldade da aplicação deste regime, demonstrada pelo longo período da sua existência puramente formal, aconselha a que a regulamentação da sua aplicação seja processada de forma gradual e acompanhada, admitindo a necessidade de eventuais ajustamentos.

Reforço da capacidade de intervenção por parte da Administração

Esta linha estratégica (I.2) preconiza o reforço da capacidade de intervenção por parte da Administração ao nível regulador, arbitral e fiscalizador em matéria de recursos hídricos através da qualificação dos seus recursos humanos nestas áreas e da transferência para a sociedade civil das tarefas para as quais esta se encontra mais vocacionada (outsourcing), tendo como unidade de planeamento e gestão a bacia hidrográfica.

É fundamental reforçar qualificadamente a capacidade de intervenção da Administração neste âmbito, o que não tem de significar o seu crescimento em termos de efectivos; portanto, há funções e locais com excesso de efectivos e tarefas delegáveis sem qualquer prejuízo para os interesses públicos que poderão ser realizadas mais eficientemente por agentes privados.

Uma melhor Administração deve pois decorrer de uma melhoria da sua actuação nas áreas que só esta pode desempenhar, isto é, nas que dizem respeito ao exercício do papel de autoridade hídrica e do ordenamento do sistema dos recursos hídricos, delegando na sociedade civil as funções para as quais esta se encontra mais vocacionada e que correspondem genericamente à prestação de serviços específicos.

Em suma, deve caminhar-se no sentido da delegação ou descentralização das actividades que o Estado não tenha necessariamente de assegurar, melhorando o desempenho deste na concepção, na implementação e no controlo dos mecanismos de regulação e de salvaguarda do interesse público.

Complementarmente a esta filosofia, deverão actuar os mecanismos de responsabilidade compartilhada interinstitucionalmente e com os utilizadores e o desenvolvimento da cooperação internacional, a qual é importante no caso da bacia hidrográfica do Lima para a realização de um adequado exercício de planeamento e gestão dos seus recursos hídricos.

Aumento do conhecimento sobre o sistema de recursos hídricos

Esta linha estratégica (I.3) preconiza o aumento do conhecimento sobre o sistema de recursos hídricos através da criação e manutenção de um sistema integrado de monitorização do meio hídrico associado a um sistema de informação de recursos hídricos e da realização de estudos aplicados e de investigação nas matérias relacionadas com este sistema onde se detectem mais lacunas informativas ou de conhecimento sistémico, nomeadamente na área da qualidade biológica dos meios hídricos.

É fundamental ter em linha de conta que os grandes volumes de informação gerados num adequado sistema de informação de recursos hídricos requerem a utilização de um processo de recolha, tratamento, armazenamento e disponibilização que permita torná-los úteis aos processos de decisão e aos estudos dos serviços da Administração ou outras entidades.

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