Portaria n.º 23601 — Aprova os programas do ciclo preparatório do ensino secundário, instituído pelo Decreto-Lei n.º 47480

Tipo Portaria
Publicação 1968-09-09
Estado Em vigor
Texto Tal como publicado
Ministério Ministério da Educação Nacional - Gabinete do Ministro
Fonte DRE
artigos Não indexado

Este é o ato tal como foi publicado. As alterações posteriores não estão incorporadas no texto: cada uma é um ato autónomo neste repositório e uma entrada no historial desta lei.

Aprova os programas do ciclo preparatório do ensino secundário, instituído pelo Decreto-Lei n.º 47480

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Durante o 1.º ano o curso dará predomínio aos exercícios de expressão pura, subjectiva e objectiva. O aluno vai-se familiarizando com as harmonias das formas e das cores. A alacridade destas é uma necessidade de comunicação; não deverá inicialmente ser sujeita a qualquer correcção; pouco a pouco surgirá a noção de equilíbrio de tons, como posteriormente a do claro-escuro. O professor deverá anotar cuidadosamente as anomalias que surjam no sentido cromático dos alunos (daltonismo e outras) para que sejam objecto de intervenção por parte dos serviços médico-pedagógicos.

No 2.º ano já se exigirá mais técnica de desenho, insistindo-se nos exercícios objectivos, sem prejuízo das tendências reveladas pelos alunos. Os aspectos subjectivos serão mais explorados sob as formas de desenho de memória e de imaginação.

5.

Os alunos, durante o ciclo, não poderão ver chegar ritualmente todos os anos os mesmos assuntos e desenhar objectos demasiado conhecidos e que encontram em todas as aulas. Também não é de admitir que os exercícios de imaginação, os de observação ou de sentido decorativo alternem entre si sem laços verdadeiros e sem correspondência com outras matérias. Salienta-se ainda que não se podem fixar duas posições na condução didáctica: o desenho e o professor de um lado, os alunos do outro.

É sempre possível no ensino do desenho estabelecer correspondências com as outras disciplinas, pelo que se torna conveniente que os exercícios gravitem à volta de um tema, da exploração de um «centro de interesse», sobretudo por parte dos professores polivalentes que fàcilmente estabelecerão um programa construtivo.

Seria vão pretender fechar o aluno no mundo escolar e convirá, pelo contrário, tirar partido durante a execução do programa dos conhecimentos adquiridos fora da aula, pois não raro os alunos desatentos à aula estão atentos perante outros acontecimentos que os entusiasmam.

6.

As diferentes rubricas do programa estão indicadas sem obediência a nomenclatura fixa, para que fique vincado que se trata de questão de somenos: interessa o que se faz, e não como se chama. Aparecem, assim, desenhos livres, à vista, do natural e interpretativos, sem discriminar o que é livre, o que é objectivo ou o que é interpretação pessoal.

Ultrapassada a fase em que se tornou necessário optar por uma terminologia mais ou menos fixa para conseguir uma renovação de fundo na aprendizagem do desenho, parece agora natural voltar a certa liberdade no tratamento do assunto.

Em cada teste a fazer o professor apresentá-lo-á a toda a turma, com enunciado perfeito e claro, sem explicações complementares que induzam um caminho para a solução. Não se apresentará aos alunos qualquer correcção do exercício.

No desenho livre, não interessa apreciar o valor, porventura aparente, da vocação artística do aluno, mas sim a exteriorização da sua personalidade. Na apreciação, o professor poderá apresentar comentários seus ou provocá-los por parte do autor, sempre sem ferir a natural susceptibilidade deste, de forma que, sem a criação de qualquer complexo, os alunos sintam que a sua liberdade de expressão só tem como limite a liberdade dos outros.

No desenho à vista, do natural ou interpretativo, os executantes apresentarão as suas impressões pessoais sobre formas e cores, naturalmente diferentes de sujeito para sujeito. Interessa aqui, dentro dos objectivos fundamentais da educação plástica, tornar mais hábil a mão que desenha e mais arguta a mente que vê, levando o aluno à cooperação com o professor na capacidade de apreciar o trabalho executado, apurando a sensibilidade, de forma que ressalte a expressão humana com que a arte se projecta na vida social.

No desenho decorativo, o aluno utiliza os elementos suscitados pela observação e transformados por uma interpretação simplificadora, agrupando-se pela forma que lhe pareça melhor, para servirem de ornamento funcional. Nesta modalidade, o professor apreciará a influência da imaginação criadora e a capacidade para o equilíbrio das formas e das cores, na obtenção dos efeitos requeridos, procurando canalizar o esforço dos executantes no sentido das expressões estéticas com finalidades utilitárias, sem prejuízo da originalidade e da frescura da realização gráfica.

O desenho geométrico destina-se a preparar a solução de pequenos problemas práticos; muito embora a lápis, devem ser objecto de cuidados de limpeza e exactidão. Esta última qualidade refere-se à concordância e às medições, que alguns alunos têm certa tendência para descuidar.

7.

Faz-se sentir nesta disciplina, mais do que em qualquer outra, a vantagem de permitir que, na maioria dos casos, as tarefas possam ser concluídas na mesma sessão em que foram iniciadas, sem deixar esmorecer o interesse pela criação. Deste modo, cada sessão terá 110 minutos ininterruptos, compreendendo os pequenos lapsos de tempo necessários à preparação inicial do material de trabalho e à sua arrumação no final.

O material usado é o corrente em desenho: régua T, esquadros (45º e 60º), duplo-decímetro graduado, lápis (n.os 2 e 3), cores (guacho, aguarela e pastel), borracha (de uso restrito), pincéis, tira-linhas (para alguns exercícios geométricos do 2.º ano). O papel terá normalmente a esquadria impressa, até que o aluno aprenda o processo de esquadriar, mas não se pretende que o formato de papel ou a sua qualidade sejam uniformes ou constantes.

Todos os alunos deverão ficar sabendo como aparar um lápis, limpar uma borracha, um tira-linhas, um pincel, etc., de forma que o façam com a possível correcção.

8.

A ficha individual de orientação escolar para esta disciplina deverá conter os dados específicos referentes aos resultados dos testes Decroly, o tipo de exercícios em que o aluno demonstra maior capacidade e as inibições particulares reveladas pelos seus desenhos, além dos dados gerais sobre atenção, memória, inteligência, coordenação motora e outros.

Não se pressupõe a frequência do ciclo por alunos totalmente inibidos de desenhar, por defeito físico ou tara mental. Não é de prever a dispensa do desenho para quaisquer alunos que se considerem menos dotados; e quando os haja, haverá sempre maneira de ser realizada a finalidade do programa num sentido de recuperação individual, muito embora lenta e trabalhosa para o aluno e para o professor.

9.

Nesta disciplina não há que estabelecer sumários de lições, como também não haverá qualquer caderno para os alunos; é o conjunto dos trabalhos de cada um destes que documenta a actividade das aulas.

Não se recomenda obrigatòriamente o uso de qualquer compêndio escolar, nem sequer para os exercícios de desenho geométrico, mais susceptíveis de apresentação sob a forma de receitas de execução. Evidentemente, ninguém se lembraria de ensinar a responder aos testes; nem há compêndios que sirvam para os alunos aprenderem a expressar os seus pensamentos por meio de desenhos.

O uso de livros com desenhos feitos para serem copiados está naturalmente fora de qualquer discussão; o desenho do natural não pode ser de estampa e os compêndios não chegam para ensinar um aluno a ver.

Estas normas não dizem respeito aos mostruários pictóricos nem às tabelas sobre harmonia de cores. As salas de desenho (como, aliás, toda a escola) podem e devem estar repletas de elementos de beleza, num sentido decorativo que é mister saber manter e variar de acordo com as possibilidades. Flores, plantas, estatuetas, pinturas murais, tapeçarias e tantos pormenores em que o bom gosto de todos se patenteará.

A arte é, na sua totalidade, um elemento perene da verdadeira educação.

Esquematização programática

1.º ano

I) Exercícios iniciais

Desenho livre. - Cada aluno começa por executar, na folha de papel que lhe é dada, um desenho à sua vontade - o que entenda e como queira, com cores ou a preto e branco, a lápis ou tinta. O professor procurará não ter que sugerir o motivo, apenas incitando os mais tímidos. Não intervém na execução, mas exige em cada desenho uma legenda explicativa.

Teste. - Os alunos da turma executam simultâneamente um teste de representação mental de Decroly. Classificação de cada aluno num dos cinco estádios correspondentes aos resultados do teste.

Desenho à vista. - Modelo-tipo: casas e árvores. Paralelepípedos rectângulos com coberturas de telha (vermelho), paredes brancas, aberturas rectangulares (portas e janelas). Árvores de copa esférica ou cónica, verdes; troncos cilíndricos, em tons escuros.

Desenho de memória ou de imaginação. - Paisagens com casas e árvores.

Desenho interpretativo. - Modelo-tipo: jarras, de formas simples, pintadas de uma só cor ou com barras de cores diferentes.

Ao representar o objecto do desenho à vista anterior, o aluno pode modificar as cores à vontade, porquanto é preciso destruir o preconceito de que as cores devam ser sempre as reais ou aparentes; e, se quiser, pode supor a jarra com uma ou mais flores dentro. As cores podem ser obtidas a partir de recortes de papéis lacados ou ainda lápis, aguarelas ou outros materiais.

Desenho geométrico. - Aproveitar a sugestão das flores para ensinar a desenhar geomètricamente uma flor de seis pétalas com base na divisão de circunferência.

Utilizar a experiência das cores para dar ao desenho uma aplicação decorativa.

Desenho de memória. - Um caso vivido pelo aluno: um passeio, uma feira, um circo, etc., compreendendo figuras de pessoas, animais e outros elementos da lembrança do executante. Cor. Descrição sumária da cena, numa legenda explicativa.

Desenho à vista. - Modelo-tipo: utensílio ou objecto usual, cujas dimensões caibam na folha de desenho, sem redução apreciável, e com uma forma baseada em superfícies simples, planas ou de revolução.

A interpretação do executante pode ir até à alteração das cores do modelo. Tome-se em atenção as modificações da relação entre a altura e o maior diâmetro ou largura; sem corrigir, mostre-se ao aluno a deformação, se a houver.

Desenho geométrico. - As portas e janelas das casas são rectângulos; as paredes também. Podemos construir rectângulos a partir dos quadrados de papel quadriculado; cada dimensão dos rectângulos construídos fica dividida em partes iguais. Os lados continuam paralelos. Com base nesta sugestão construtiva, o aluno aprende os processos geométricos de:

a)

Dividir um segmento de recta em duas partes iguais, em quatro, em oito, etc.;

b)

Levantar uma perpendicular no extremo de um segmento de recta (utilizando sòmente a régua e o esquadro);

c)

Construir um quadrado com um lado dado.

Em continuação destes exercícios o aluno aprenderá a traçar a bissectriz de um ângulo.

Desenho do natural. - Modelo-tipo: edifício com uma massa saliente no sentido da altura (chaminé, torre, etc.). Indicação de portas, janelas e telhados; colorido. Chama-se a atenção do aluno para o facto de certas distâncias não sofrerem encurtamento aparente, enquanto outras o sofrem (efeito de perspectiva).

II) Exercícios de continuação

Desenho livre. - Recordação de paisagens, vistas, imaginadas ou sonhadas. Árvores e casario. Efeitos de perspectiva (sem correcção directa pelo professor). Tentativas mais cuidadas do desenho de figuras (humanas e animais) obtidas de memória.

Desenho interpretativo. - Modelo-tipo: objectos com predomínio de massas horizontais ou verticais (utensílios, ferramentas, etc.).

Desenho geométrico. - Com base em sugestões de intenção decorativa ou construtiva, abordar-se-ão os seguintes problemas:

a)

Construção de rectângulos e paralelogramos, dadas as diagonais; exercícios de esquadria de papel;

b)

Divisão de uma circunferência em dois, três, quatro, seis e oito partes iguais; construção dos polígonos regulares inscritos de três, quatro, seis e oito lados.

III) Exercícios finais

Desenho do natural. - Modelo-tipo: objecto usual com simetria marcada e, depois, dois objectos usuais com simetrias do mesmo tipo, mas contrastando pelas proporções.

Composições livres. - Continuação dos exercícios de memória visual. Cenas simples contendo movimento. Coloridos. Trabalhos colectivos.

Nos exercícios que levem letreiros deverá pouco a pouco incutir-se nos alunos a vontade de desenhar as letras e os algarismos, isto é, dar-lhes uma certa unidade de tamanho e apresentação. Os resultados iniciais não serão satisfatórios em muitos casos, mas o que mais importa é a aplicação do aluno com a intenção de vir a fazer melhor.

Os traçados do desenho geométrico devem ser feitos e acabados a lápis.

2.º ano

I) Exercícios iniciais

Desenho do natural. - Modelo-tipo: folhas vegetais com forma recortada. Chame-se a atenção para a forma geométrica da linha envolvente e a sua constância nas plantas da mesma espécie. Não se trata de um exercício de desenho geométrico; pretende-se sòmente um traçado firme, feito à mão livre e ràpidamente.

Desenho decorativo. - Aproveitamento das sugestões do desenho anterior para a realização de conjuntos decorativos. Transformações simplificativas (primeiro esboço de estilização).

Desenho à vista. - Estudos sobre modelos-tipos com formas definidas e arestas marcadas - utensílios, ferramentas, etc. Podem-se dar agora aos alunos algumas ideias gerais sobre perspectivas de observação, sem necessidade de mencionar os pontos e linhas notáveis. Simplesmente se tratará de chamar mais uma vez a atenção para os fenónemos da perspectiva e dar alguns meios de os verificar.

Alguns destes desenhos, começando pelos modelos mais simples, serão executados como exercícios de memória visual, apresentando-se o modelo ao aluno apenas para num curto lapso de tempo, considerado suficiente para a retenção das formas a desenhar.

II) Exercícios de continuação

Desenho à vista. - Modelo-tipo: objecto usual com formas arredondadas. Estudo elementar do claro-escuro.

Desenho geométrico. - Aproveitando a sugestão do exercício anterior, o aluno executa desenhos geométricos sobre os seguintes problemas:

a)

Circunferências concêntricas, tangentes e secantes;

b)

Traçagem de tangentes à circunferência num ponto dado nesta; polígonos regulares circunscritos de três, quatro e seis lados.

Deve atender-se à apresentação desta espécie de desenho, acostumando-se o aluno a hábitos de rigor (nas concordâncias e nas medições) e de limpeza.

III) Exercícios finais

Desenho do natural. - Modelo-tipo: flores, frutos, etc. Estudo dos valores e das matérias. Ensaios de tradução do mesmo modelo com diferentes técnicas: pena, pincel, pauzinho, etc. Fundos. Os alunos de mais apurada sensibilidade estética podem tomar seres vivos por modelos (se tentam o retrato do natural, não deve o professor impedi-lo, quando os julgue com suficiente capacidade).

Desenho decorativo. - Aproveitando motivos desenhados do natural, os alunos serão interessados no estudo do equilíbrio de valores e de massas, num esboço de representação esquemática, com intenções decorativas.

Composições livres. - Temas de memória ou de evocação; narrativas, poemas, fábulas, cenas de jogos, da rua, do trabalho. Observação do movimento e das atitudes. Trabalhos colectivos.

Trabalhos Manuais

1.

Seria ocioso insistir nas vantagens da inclusão desta disciplina no currículo de um ensino activo. Ela constitui parte importante dos meios utilizados com mira nas finalidades gerais do ciclo. Importará apenas deixar aqui consignadas algumas das finalidades específicas a considerar.

A palavra, o desenho e o trabalho manual são formas de expressão natural e constituem, no seu todo, a linguagem da criança; mobilizam as suas faculdades de memória, de intuição e de acção, num conjunto activo que se interpenetra e se completa em cada aspecto do comportamento.

É vital a importância do trabalho na aquisição de conhecimentos, dado que esta depende de elaborações e assimilações que não podem realizar-se sem esforço pessoal e sem actividade do educando. De facto, a criança não possui conhecimentos que ela própria não tenha criado.

Consideraremos então o trabalho manual como forma tridimensional da expressão dos conhecimentos, espécie de «modelação» destes, com a interpretação pessoal que revela a intimidade psíquica do «modelador».

O valor didáctico da actividade manual corresponderá ao aproveitamento de um circuito fechado de reacções psicomotoras. O espírito conduz a mão na obtenção de um resultado tangível; a linha de acção impõe, portanto, a elaboração de uma série de regras normativas que o maior ou menor êxito na execução verificará ou fará corrigir. Essa verificação, ou a correcção necessária, correspondem a processos educativos, quer do espírito, quer do sistema motriz.

Deste modo, a estimulação das destrezas manuais está inteiramente associada ao aparecimento e ao aperfeiçoamento das destrezas espirituais do aluno, cujo psiquismo está em plena evolução, para aprender a pensar aprendendo a fazer.

Para que aquela estimulação produza efeitos verdadeiramente educativos é, porém, necessário que a obra a realizar corresponda a um interesse real do executante.

O interesse pelo trabalho corresponderá a qualquer utilidade deste, muito embora tal utilidade possa não representar um valor económico; o essencial é que ela seja reconhecida e sentida pelo aluno, preferìvelmente por sua própria sugestão. Assim, não é de aconselhar a repetição de trabalhos que só sirvam a escola, sem interessarem senão medìocramente o aluno; mas este pode e deve intervir na obtenção de certos meios de ensino, relacionados com outras disciplinas, onde cabe ao respectivo professor estimular os educandos aquela «febre» de produção que os levará a desejar fazer pelas suas mãos o modelo, o dispositivo experimental, o maquinismo ou outros objectos de que haja necessidade.

Ficará assim assegurado, do ponto de vista escolar, que os Trabalhos Manuais permitam a concretização do ensino e constituam um meio de ilustração e de demonstração para todas as disciplinas, sendo, como são, um complemento indispensável do processo mental do aluno. Algumas matérias beneficiarão especialmente do apoio proveniente da aplicação concreta que corrobora e completa a explicação teórica.

2.

O domínio a obter dos materiais «de construção» depende naturalmente da resistência destes. Teremos então como objecto das actividades escolares, sucessivamente:

a)

Os materiais plásticos, como o barro, a cera, a plasticina, etc.;

b)

Os materiais semiplásticos, como o papel, o cartão, os tecidos, os couros, os vimes, etc.;

c)

Os materiais rígidos fàcilmente cortáveis, como a polpa da batata, certas madeiras, a cortiça, o estanho, a folha-de-flandres, o arame, etc.;

d)

Os materiais rígidos dificilmente cortáveis, como quase todas as madeiras e os metais de uso corrente.

A prática dos trabalhos manuais exige a utilização de ferramentas e, para alguns materiais, de certas máquinas. Umas e outras são de uso corrente e há vantagens em que o aluno se familiarize com elas. De resto, o prestígio das máquinas exerce-se de tal maneira no espírito dos jovens que é com alegria, interesse e curiosidade que tomam contacto com elas.

Há que começar pelo mais simples, indo da lima e do serrote até ao pequeno engenho de furar, como da agulha e do bastidor até à máquina de costura. Não se irá tão longe que o aluno ultrapasse o conhecimento daquelas máquinas muito modestas que permitem diminuir o tempo e o esforço do trabalho e dar a este um acabamento que satisfaça o executante.

É natural que a escassez do tempo e de meios apropriados reduzam a mero apontamento os exercícios que requerem o uso de máquinas; ficarão, no entanto, como registo do que seria desejável e se pretende que alguma vez venha a ser realidade.

A utilização de ferramentas ou de máquinas deve ser orientada no sentido de dar aos trabalhos manuais conteúdo educativo, onde sobreleve o valor do exercício pessoal sem menosprezo das possibilidades de perfeição que a técnica actual nos oferece.

Na mesma finalidade educativa se deve incluir o conhecimento prático das indispensáveis regras de segurança.

3.

Os trabalhos com materiais plásticos constituem realmente um exercício de «modelação»; dão aos alunos uma percepção exacta dos volumes e das formas e correspondem geralmente a ideias cuja construção não é fàcilmente traduzível num desenho. Aliás, realizando-se esses trabalhos na fase inicial do curso, ainda os alunos não têm adquirido uma técnica suficiente de desenho para se conseguir um planeamento capaz baseado nesses desenhos.

Os materiais semiplásticos servem de exercício associável a desenhos traçados em regra sobre o próprio material, constituindo um processo excelente de adestrar as mãos e de aplicar pràticamente o que se aprendeu no Desenho ou na Matemática.

Os exercícios com materiais rígidos ganham em ser planeados com base em desenhos de construção, designação porventura ambiciosa para os simples «esboços» executados pelos alunos com indicação das medidas, como preparação do objectivo em vista, antes da sua realização material.

Nem sequer se poderá esperar dos executantes, durante quase todo o 1.º ano, que consigam exprimir, por meio de um desenho suficientemente explicativo, as ideias que pretendem realizar. Sòmente no 2.º ano, e não em todo ele, será de exigir uma apresentação mais adequada do plano de trabalho.

As deficiências merecerão cuidadosa atenção da parte do agente de ensino, que fará o possível por ajudar o aluno a concretizar a sua ideia, mesmo que tenha de ser ele quem acabe por desenhar o esboço.

Às vezes o interesse dos alunos por coisas complicadas, que ficam fora do alcance das suas possibilidades de construção, dificulta de certo modo a tarefa do mestre, que não deve por isso encorajar ideias que conduzam a realizações impraticáveis. Há, pois, necessidade de impor um certo sentido das realidades, para evitar perdas de tempo e fracassos que redundariam na criação de complexos difíceis de vencer.

De uma maneira geral, a construção implicará um projecto, de um aluno ou de um grupo de alunos, muito embora o seu delineamento possa ser deficiente durante a primeira parte do curso.

4.

Na fase de execução, sem prejuízo da iniciativa do aluno, o mestre intervirá sempre que necessário no sentido de obter certo adestramento funcional, específico desta actividade. Já o Ministério da Educação britânico diz nas suas instruções didácticas - «nem sempre a chamada expressão livre significa que os alunos façam o que querem, sem guia ou sugestão alguma»; e o grande pedagogo da escola activa Kerschensteiner escreveu, baseado em experiências realizadas com alunos de várias idades - «a exigência de elevada perfeição num exercício não prejudica em nada a satisfação pelo trabalho executado, antes, pelo contrário, fá-la aumentar em proporções tais que nos autorizam a dizer que constitui um caminho pelo qual se pode enveredar desde o início dos trabalhos escolares».

Queremos com estas citações indicar que se deve, desde o princípio, incutir no espírito do aluno a ideia de que o seu trabalho ganha em receber um acabamento digno e suficiente cuja perfeição dependerá da altura do curso, do género de material utilizado e das possibilidades do aluno.

O trabalho manual pretende instruir, não apenas «divertindo» os alunos; há que estimulá-los a vencer as dificuldades, a desenvolver a vontade e a ter a coragem de, reconhecidos os erros, retomarem a tarefa, numa ambição honesta que visa o valor fecundo do trabalho.

Em determinada altura, para conseguir execução de alguns projectos haverá, portanto, de incluir, no decorrer do trabalho, certos exercício de adestramento, como o serrar, o aplainar e o limar, procurando que o aluno aprenda a obter um melhor rendimento do esforço físico produzido. Inclui-se nestes exercícios alguma metodização de atitudes, ensinando-se qual deve ser a posição correcta do corpo, qual o grau de pressão a efectuar com a mão ou com a ferramenta, como se deve seguir com a vista a saída dos desperdícios, quais os cuidados a ter para evitar um acidente, etc. Em suma: trata-se de conseguir processos úteis e higiénicos para trabalhar.

Não será demais esclarecer que este esboço de metodização exclui a repetição excessiva dos mesmos movimentos, com um sentido que tivesse já o carácter de adestramento profissional. Evitemos então o cansaço do executante e a perda de interesse que só prejudicam a finalidade em vista; se o aluno se mostra decididamente inábil em certas operações (o que se anotará na respectiva ficha individual), tentar-se-ão outros géneros de exercícios.

A finalidade social dos Trabalhos Manuais será fomentada e esclarecida pela realização de tarefas por equipas; o projecto e a sua execução serão objecto de uma cooperação bem entendida, em que o professor intervém sòmente para corrigir a distribuição dos encargos individuais, se se verificar (como às vezes sucede) que algum ou alguns abusam em seu proveito do esforço dos mais entusiastas.

5.

Se não houvesse outras diferenças a considerar, bastava a diversidade de alguns dos materiais de que se dispõe para que os exercícios de Trabalhos Manuais apresentem sensíveis variações regionais. Na verdade, os próprios motivos podem apresentar aspectos de índole local, buscando remota ou directa inspiração em assuntos da economia do meio e do seu folclore.

Nos trabalhos com materiais rígidos, se os de natureza metálica são, por assim dizer, universais, as madeiras e semelhantes variam de região para região, mesmo sem sair do nosso continente europeu. Nem em todas as zonas abunda a cortiça, como nem todas dispõem de aproveitamento fácil em nogueira ou eucalipto; e há interesse em preferir os produtos que podem influir no incremento das actividades de carácter local. Maiores diferenças ainda são de notar quando se trata das províncias ultramarinas, onde naturalmente existem materiais de que se não dispõe no continente e escasseiam os que são peculiares deste último.

Idênticas variações se apresentam nalguns materiais plásticos ou semiplásticos; certos tecidos, certas fibras, têm uma importância decididamente regional e caracterizam uma série de produções que, nem por serem de puro artesanato, ou exactamente por isso mesmo, têm um elevado interesse nas actividades desta disciplina.

Assim, deixemos que os alunos e as alunas tomem íntimo contacto com os aspectos típicos das pequenas indústrias e curiosidades locais, manejando a ráfia ou o vime, recortando a cortiça ou o bambu, embelezando nozes de coco ou pinhas, cosendo o linho ou o gorgorão, etc. Aproveitemos, em cada caso, o sentido estético, o valor espiritual e as motivações económicas que as pequenas ou grandes produções regionais possam sugerir ou fornecer.

As mesmas razões aconselham a adequação dos trabalhos de jardinagem ou hortícolas às condições e interesses locais.

6.

É na disciplina de Trabalhos Manuais que mais se fazem sentir as diferenças de interesses, de preferências e de determinações sociais que caracterizam os dois sexos.

Deste modo, os programas, à parte uma série de exercícios iniciais e os trabalhos de jardinagem e horticultura, apresentam-se nìtidamente diferenciados, indicando em separado os trabalhos que são próprios do sexo feminino.

7.

O apelo aos diferentes aspectos da actividade motriz dos alunos fornecerá aos serviços de orientação escolar dados de suma importância.

Os gestos e as preferências, o grau de capacidade e de aptidões demonstrado, as variações de atitude, em reacções individuais e perante arranjos colectivos, enfim, todos os elementos de «comportamento» do aluno em face da tarefa a realizar serão cuidadosamente anotados na sua ficha pessoal.

Os trabalhos manuais dão, em todas as circunstâncias, mesmo nos casos de diminuição intelectual ou física, elementos de grande valor para o esclarecimento da personalidade da criança. Podemos dizer que, à parte certos casos de deformidade física ou diminuição sensorial que colocam a criança fora da acção destas escolas, não é de prever uma incapacidade absoluta para a disciplina de Trabalhos Manuais; em qualquer caso, haverá sempre maneira de ser realizada a finalidade do programa num sentido de recuperação individual, muito embora lenta e trabalhosa, para o aluno e para o professor.

8.

As sessões de Trabalhos Manuais incluídas no currículo do ciclo preparatório têm a duração de 110 minutos cada uma. Sendo necessário ocupar alguns minutos com a arrumação dos apetrechos, ferramentas e outro material utilizado, terão os alunos cerca de 100 minutos de exercício útil - o que está muito longe de se tornar fatigante para os executantes.

O ensino dos Trabalhos Manuais, eminentemente prático e individual, não deve incidir sobre a totalidade dos alunos que constituem as turmas normais das outras disciplinas. Será conveniente a divisão dessas turmas em turnos de trabalho que não excedam 16 alunos cada um; o serviço dos professores de Trabalhos Manuais organizar-se-á em conformidade com esta divisão.

O apetrechamento de cada oficina de Trabalhos Manuais será, portanto, condicionado às necessidades correspondentes ao exercício de 16 alunos; mas, para não multiplicar o número de alguns apetrechos de menos uso, é de admitir a instalação, na mesma oficina, dos móveis necessários para o trabalho simultâneo de dois turnos, entregues a dois agentes de ensino.

9.

Os programas que se seguem não pretendem representar listas de trabalhos a realizar exactamente pela ordem por que estão indicados. Trata-se de sugestões que serão completadas ou modificadas de acordo com os interesses em causa, tendo em atenção as influências do meio e de tempo, dentro daquela motivação geral concertada para todas as actividades de cada turma.

As mesmas razões que podem levar à alteração da ordem ou da matéria dos exercícios, indicadas nos programas, também poderão determinar a minimização até à exclusão de algum ou alguns deles. Não importa que os alunos de um turno estejam todos a executar simultâneamente trabalhos do mesmo género, nem sequer que estejam todos a trabalhar no mesmo local. Tudo se há-de acomodar às possibilidades de tempo e às condições peculiares de instalação e outras que intervêm na execução dos exercícios.

Esquematização programática

(Sexo masculino)

1.º ano

Trabalhos iniciais:

Exercícios de recorte e colagem em papel e cartolina para averiguação da capacidade dos alunos com vista à execução dos exercícios ulteriores.

Confecção de embrulhos e de caixas de cartolina ou cartão.

Modelação: exercícios de criação espontânea em que se dá ao aluno um pedaço de matéria plástica para amassar e modelar à sua fantasia. Seguem-se trabalhos em que se mostra como se modelam formas elementares de objectos simples ou de elementos naturais. Os exercícios executam-se numa sessão e não é necessária a preocupação de conservar os trabalhos feitos. Podem, no entanto. ser pintados com tintas adequadas ou até cozidos.

Capas de cadernos e de livros. Confecção de livros.

Arranjo e reparações com papel, cartolina ou cartão.

Gravações em linóleo em colaboração com a disciplina de Desenho para obtenção de efeitos decorativos.

Cabazes e cestos de vime e cana; exercícios similares com materiais de interesse regional.

Trabalhos de madeira:

Etiquetas, em tabuinha ou em contraplacado, para encomendas, chaves, classificação de plantas ou de rochas, indicações de biblioteca, etc.

Caixas rectangulares (pregadas) para objectos comuns (lápis, lenços, etc.).

Cestos ou objectos semelhantes, a partir de tábuas rectangulares, pregadas ou aparafusadas (sem malhetagem), pintadas ou enceradas; decorações simples.

Jogos de dominó, com pontos pintados. Suportes para escovas, chaves, etc. Cabides recortados à serra com pintura lisa ou decorados. (Nos exercícios deste grupo, ensinar-se-ão os rudimentos da técnica de aparelhagem para pintura e de colagem ou grudagem das madeiras; sempre que a natureza do trabalho o permita e se trate de material corrente, a madeira poderá substituir-se pela cortiça.)

Trabalhos de metal:

Recorte de desenhos simples, executados em folha-de-flandres: fichas coloridas, hélices, etc.

Exercícios de corte de chapa fina, baseados em planificações simples.

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Cultura de plantas de ciclo vegetativo completo durante o ano lectivo.

Cultura de flores, em vasos ou canteiros. Arranjo de canteiros.

2.º ano

Trabalhos de madeira:

Prateleiras, cerra-livros e outros objectos, com malhetagens muito simples.

Molduras muito simples (para os mais destros), como aperfeiçoamento: tabuleiros, portas corrediças para armários, etc.

Trabalhos com materiais plásticos e semiplásticos:

Exercícios de modelação.

Exercícios com vimes, verga ou outros materiais de interesse regional: encanastramento, entrelaçados, asas, etc.

Exercícios de tecelagem.

Trabalhos de metal:

Exercícios incluindo limagens de certo rigor, para obter cotas dadas, em aço macio ou latão.

Exercícios em chapa fina incluindo limagens, dobragens e soldaduras.

Montagens mecânicas simples.

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Extensão dos trabalhos do ano anterior.

Plantação de tubérculos e de estacas.

Podas e despontos.

Enxertos muito simples.

Tratamento antiparasitas.

Criação de animais:

Cuidados de higiene.

Domesticação.

(Sexo feminino)

1.º ano

Trabalhos iniciais:

Idênticos aos do sexo masculino.

Trabalhos com tecidos simples:

Confecção ou execução de objectos de utilidade prática, em que sejam aplicados pontos simples de costura, como o ponto adiante, o posponto, o chuleio e o ponto de bainha. Aplicação de pontos elementares de bordado. Utilização de fios de várias qualidades e cores.

Confecções com fios de lã, algodão ou outras fibras em tricots, crochés e pompons.

Iniciação de exercícios de tecelagem em teares rudimentares.

Trabalhos com materiais semiplásticos:

Exercícios com ráfia, palma ou outra variedade regional utilizável, carneira, cortiça, etc.; associação com tecidos ou outros materiais.

Obtenção de objectos, figuras ou animais com materiais vários, incluindo folhas e frutos secos, trapos, arames, etc.

Costura e bordados:

Trabalhos muito simples, como continuação dos iniciais, em aplicações de utilidade para a aluna ou integrados em projectos de conjunto.

Trabalhos caseiros:

Passar a ferro, lavar roupa, passajar.

Exercícios muito simples de culinária: aquecer o lanche, frigir ovos, fazer café e chá, pudins instantâneos.

Noções sumárias de higiene, limpeza e asseio (individual e no ambiente).

Trabalhos de jardinagem e horticultura:

Como para o sexo masculino.

2.º ano

Costura e bordados:

Tirar fios de tecidos; bainhas abertas muito simples.

Confecção de trabalhos em que se apliquem pontos um pouco menos simples que os do 1.º ano, como o ponto de cruz, o ponto jugoslavo, etc.

Confecção ou execução de roupas de crianças; sua decoração.

Colaboração em trabalhos de conjunto.

Trabalhos com materiais plásticos:

Confecções simples ou decorações de peças executadas com feltros ou tecidos grossos.

Figuras e bichos.

Tecelagem simples.

Trabalhos com materiais semiplásticos:

Continuação dos exercícios do ano anterior.

Trabalhos decorativos com vimes coloridos (rotim).

Trabalhos com materiais rígidos fàcilmente cortáveis:

Exercícios com cortiças, ramos, pinhas, frutos secos, etc., com intenções decorativas. Utilização de tintas em decorações.

Encadernação de livros e álbuns. Gravura em linóleo. Estampagem.

Trabalhos caseiros:

Arranjo da mesa; serviço de copa e de mesa.

Culinária simples: temperos, saladas, sopas, cozidos, guisados, fritos e bolos simples.

Tratamento de roupas, limpeza de manchas e nódoas. Noções de higiene e de limpeza. Tratamento de ferimentos leves; pensos, etc.

Trabalhos de jardinagem e horticultura e criação de animais.

Como para o sexo masculino, completados com o aproveitamento dos produtos obtidos.

Educação Musical

Introdução

Finalidade e princípios fundamentais

A música é chamada a colaborar no plano de educação do ciclo preparatório, dentro de uma ideia de formação integral do aluno.

Esta disciplina, integrada já nos programas do ensino primário, continuará agora a aproveitar os valores específicos e permanentes da música como um dos meios poderosos de formação da personalidade e de elevação espiritual do aluno, introduzindo-o, todavia, em novos estádios de desenvolvimento.

No ciclo preparatório deve procurar-se que o aluno obtenha consciência mais perfeita dos fenómenos musicais já experimentados e vividos, e também que adquira alguns conhecimentos teóricos, sem deixar de se exigir a comparticipação das suas forças dinâmicas, sensoriais e afectivas, num sentido de maior harmonização e equilíbrio humano.

Determinada, assim, a finalidade principal desta disciplina e a razão por que se intitula Educação Musical (e não ensino de música), importa estabelecer princípios gerais e os meios específicos a adoptar para atingir esta e outras finalidades mais imediatas, inerentes à mesma disciplina, e que adiante serão indicadas.

Largas experiências e verificações feitas sobre as relações psicológicas existentes entre os elementos fundamentais da música e os da natureza humana, demonstraram de modo insofismável a influência da música na educação e levaram a estabelecer princípios gerais para a disciplina de Educação Musical.

O valor intrínseco destes elementos musicais - elementos de vida e não só materiais, como por vezes são concebidos - impõe que a sua vivência se prolongue necessàriamente através de todos os graus de desenvolvimento. Por esta razão o programa do ciclo preparatório continuará a educação rítmica e a educação auditiva começadas no «ciclo elementar do ensino primário», procurando para cada um dos elementos - ritmo, melodia e harmonia - uma compreensão maior, indispensável à elevação do aluno a novos aspectos da sensibilidade musical.

O ciclo preparatório é o momento próprio para, fazer acompanhar da escrita e da leitura os exercícios destinados ao desenvolvimento rítmico e auditivo, sem esquecer, todavia, que só a música vivida e praticada faz desejar o solfejo, e que não é o solfejo que desperta o amor pela música.

O canto, considerado um fenómeno natural, começa neste momento também a impor novas exigências quanto a reportório, educação estética e higiene vocal, de acordo com a idade, o aumento de conhecimentos e de sensibilidade de quem o pratica.

Programa

Solfejo

Educação rítmica (prática)

Canções de valor rítmico.

Reprodução de ritmos livres.

Batimento dos quatro modos rítmicos.

Realização de compassos simples e compostos com marcação das subdivisões binária e ternária.

Improvisação livre; em compasso; com quadratura.

Ritmo da palavra.

Elementos de expressão: agógicos (andamento); dinâmicos (intensidade); plásticos (carácter).

Educação auditiva (prática)

Canções.

Sentido do movimento sonoro.

Reprodução vocal de motivos melódicos.

Improvisação melódica.

Entoação da escala diatónica.

Ordenação de sons e nomes de notas.

Reconhecimento de intervalos melódicos.

Prática e reconhecimento dos modos maior e menor.

Reconhecimento de sons simultâneos.

Reconhecimento dos acordes maior e menor e reprodução dos sons que os constituem.

Escrita e leitura

Pauta de cinco linhas.

Sentido da posição das notas na pauta.

Sentido do movimento sonoro na escrita.

Sinais representativos de altura e duração (notas, figuras rítmicas e respectivas pausas. Ponto de aumento; ligadura de valor).

([ver documento original](https://files.diariodarepublica.pt/1s/1968/09/21302/13791434.pdf))

Fórmulas rítmicas elementares.

Leituras e ditados simples.

Canto Coral

Reportório

Cânone (2, 3 e 4 vozes).

Melodias populares portuguesas harmonizadas.

Música portuguesa clássica.

Melodias populares estrangeiras harmonizadas (versões nas línguas estudadas no ciclo preparatório).

Música estrangeira clássica.

Educação estética

Interpretação (relações entre texto e música; fraseado).

Expressão.

Audição comentada de obras musicais.

Educação vocal

Respiração.

Vocalização.

Dicção (emissão e articulação).

Unificação das vozes (vibrato e timbre).

Instruções

As rubricas do programa e respectivas alíneas sistematizam, como se verifica, uma prática musical viva, embora também imponham tomada de consciência dos fenómenos musicais que convêm à idade e ao desenvolvimento dos alunos do ciclo preparatório.

Cada exercício na sua realização tem em vista um significado e um valor pedagógicos próprios, que se verificam independentemente da compreensão que desse significado e valor possa ter o aluno. O professor, como é óbvio, não pode ignorá-los nem sequer desinteressar-se deles.

Por esta razão, são dadas indicações directas sobre cada uma das rubricas e respectivas alíneas.

A ordem estabelecida na apresentação de programa não representa uma hierarquia quanto ao valor musical dos elementos. Apenas indica a prioridade que deve dar-se a uns e a primazia a dar a outros, segundo a finalidade a que se destinam enquanto matéria de exercícios.

Quando se propõe uma educação musical que considera os elementos musicais em estreita correspondência com as faculdades humanas e quando se sabe que aqueles elementos podem auxiliar o desenvolvimento destas mesmas faculdades, deve-se distinguir - também na prática - o valor simultâneamente musical e psicológico de cada um deles em função dos seus fins pedagógicos.

Assim, ainda que a melodia tenha a primazia, por ser a característica principal da música, deve dar-se muita vez a prioridade ao ritmo, quando se pretende desenvolver ou equilibrar o dinamismo corporal, quando se quer despertar a imaginação motriz ou ainda adquirir e desenvolver o sentido do ritmo.

E nunca será demasiada a importância a dar ao ritmo que, nas suas manifestações, é uma lei fundamental do universo verificada e realizada plenamente no movimento.

Para além disto, deve-se ter em conta que o valor mais alto do ritmo musical está no seu poder de síntese, ordenador de som e de todos os valores plásticos, agógicos e dinâmicos.

É também evidente a importância dada à canção neste programa.

Pelo seu valor real de síntese, a canção torna-se indispensável a uma profunda acção pedagógica. Mas, para tanto, será necessário que se considere e aproveite cada um dos seus elementos em ordem à finalidade a atingir.

Que a selecção atenda cuidadosamente à beleza musical das canções, é um ponto que não se põe em discussão. Há, todavia, outros valores de ordem pedagógica, que obrigam a distingui-las e a catalogá-las segundo o fim a que se destinam, o que não invalida a afirmação de que toda e qualquer canção, criteriosamente escolhida pela sua beleza, encerra já em si um valor inestimável.

Notas explicativas

Educação rítmica

Canções de valor rítmico

São as que, pela sua estrutura, mais se prestam a marcar o ritmo, os tempos, o 1.º tempo do compasso e a subdivisão dos tempos; as que mais se prestam à marcação dos diversos compassos; as que contêm as figuras rítmicas a utilizar na escrita e na leitura.

Reprodução de ritmos livres

Consiste na imitação exacta de ritmos dados.

Este exercício pede a atenção e a memória rítmica do aluno.

Exige também do professor:

a)

Clareza e precisão dos ritmos a reproduzir;

b)

Respeito pelos limites da memória e de grau de desenvolvimento dos alunos, a fim de evitar dificuldades insuperáveis com motivos extemporâneos.

Batimento dos quatro modos rítmicos

A nova fase de desenvolvimento deste exercício consiste em obter maior simultaneidade na realização, quer colectiva, quer individual, isto é: o mesmo aluno pode bater com cada mão um modo diferente; pode andar (marcando os tempos musicais) e bater a subdivisão cantando; pode contar os tempos e bater o ritmo imaginando-o; pode correr (marcando assim a subdivisão), bater o compasso com os braços e cantar; etc.

Assim, os modos rítmicos podem ser marcados pelo mesmo aluno.

Estes quatro modos podem ser marcados em instrumentos de percussão por um ou vários alunos simultâneamente.

Realização dos compassos simples e compostos

Esta alínea está directamente relacionada com a anterior.

O seu desenvolvimento adquire-se em grande parte com a prática das canções criteriosamente escolhidas para esse fim.

Outro exercício também necessário é a marcação do compasso feita simultâneamente com a subdivisão dos tempos.

Improvisação livre; em compasso; com quadratura

Consiste esta improvisação no aproveitamento e desenvolvimento da imaginação rítmica do aluno, num exercício de dinamismo e coordenação motriz.

Este exercício exige:

a)

Poder de exteriorização;

b)

Sentido da força tética ou ársica dos vários tempos, no caso de improvisação em compasso;

c)

Consciência das estruturas musicais elementares, das quais a mais natural é a quadratura.

Ritmo da palavra

Consiste este exercício em bater a forma rítmica de um inciso, de uma frase ou de uma lenga-lenga, com o cuidado de não alterar a acentuação nem o ritmo das palavras.

Elementos de expressão

Já realizados com exercícios propostos para esse fim, no ensino primário, em batimentos e outras formas independentes da canção, deverão ser agora mais directamente aplicados na realização das canções e dos solfejos escolhidos cuidadosamente para este exercício.

Educação auditiva

Canções pedagógicas

São: as canções de duas a cinco notas; as de intervalos (cujas notas de entrada caracterizam um determinado intervalo); as de modo maior e menor; as de acordes (as que começam por um acorde característico).

Sentido do movimento sonoro

Preparado pela educação sensorial, supõe exercício de atenção para ouvir e reconhecer o movimento de altura dos sons, princípio de melodia. Trata-se aqui de graus conjuntos, e não de som em movimento contínuo, como se fez nas classes elementares do ensino primário.

Reprodução de motivos melódicos

Consiste na imitação de motivos dados. Exige exercício de atenção e de memória melódica do aluno. Estes motivos exigem um mínimo de forma rítmica e de sentido musical.

Improvisação melódica

Ver o que se refere a improvisação rítmica que se baseia nos mesmos princípios.

Além disto, ter em conta que esta improvisação deve ser feita, de princípio, sem o nome das notas.

Ordenação de sons e de nomes de notas

Consiste em entoar ou cantar com o nome das notas, por graus conjuntos no âmbito da escala diatónica, mas livremente, em movimentos ascendentes e descendentes. Este exercício pode também obedecer a um motivo dado.

Reconhecimento dos intervalos

Este exercício pode relacionar-se com o das canções de intervalos; no entanto, é por ele que o aluno adquire o sentido quantitativo e qualitativo dos mesmos intervalos, o que não acontece com as canções.

Reconhecimento dos modos maior e menor

As canções são ainda a melhor forma de fazer sentir e distinguir os modos maior e menor.

Reconhecimento de sons simultâneos

Este exercício consiste em fazer ouvir simultâneamente dois, três ou quatro sons, e em fazer reproduzir vocalmente esses sons, ascendente ou descendentemente, sem o nome das notas.

Reconhecimento dos acordes maior e menor

Este exercício, já preparado pela canção para os modos maior e menor, consiste, em fazer distinguir a natureza dos acordes e classificá-los pela sensibilidade.

Escrita e leitura

Pauta simples de cinco linhas

A pauta simples serve a leitura sem clave (relatividade) e a leitura com clave (absoluto). Esta última traz consigo a necessidade de conhecer a função das claves integradas na pauta dupla:

([ver documento original](https://files.diariodarepublica.pt/1s/1968/09/21302/13791434.pdf))

No entanto, o exercício de leitura nesta pauta não se impõe no ciclo preparatório por falta de tempo para uma prática conveniente. Ler-se-á, portanto, na pauta simples pelos sistemas de relatividade e absoluto - como já acima dissemos.

Sentido da posição das notas da pauta (linhas e espaços)

Adquire-se por meio de exercícios meramente visuais, cujo objectivo é a aquisição dos reflexos rápidos necessários à leitura.

Sentido do movimento sonoro na escrita (subir, descer, permanecer, saltar)

Exercício de natureza visual a que deve ligar-se o sentido auditivo do movimento sonoro.

Sinais representativos - Fórmulas rítmicas elementares

Leituras e ditados simples

A prática indicada por estas alíneas deve ter sido devidamente preparada pelos exercícios anteriores, podendo seguir-se agora a prática tradicional.

Educação Física

(Sexo masculino)

Considerações gerais

Os programas da disciplina de Educação Física para o ciclo preparatório do ensino secundário são condicionados por três aspectos fundamentais que integram o conceito de educação: o objecto, fim e meios.

É objecto da educação do aluno - espírito e corpo em unidade de natureza; o fim reside no desenvolvimento integral e harmónico desta unidade indivisível; os meios de que se serve a acção educativa são diversos e variáveis, dependendo dos efeitos imediatos pretendidos.

Aspecto imprescindível da formação integral, a Educação Física utiliza como meio principal os exercícios físicos, tendo por fim a adaptação biológica do indivíduo, o reforço das suas qualidades de saúde, a educação psicomotriz, a formação do caracter e a educação social.

A disciplina de Educação Física é obrigatória. O aluno poderá ser dispensado da prática de todos ou determinados exercícios físicos, mas nunca de participar em tarefas relacionadas com aquela disciplina, processo particularmente válido pelo que daí pode para ele advir de benéfico sob o ponto de vista psicossocial - libertar-se, com êxito, da diminuição de que se sente possuído.

A sua colaboração reveste-se de interesse em tarefas de:

Organização (planeamento de torneios, informação e difusão);

Direcção (arbitragem, cronometragem, etc.).

Nestas idades o principal objectivo da Educação Física, educação pelo movimento, é colaborar no desenvolvimento das grandes funções.

O ensino desta disciplina far-se-á através de lições, que independentemente do seu conteúdo próprio estarão relacionadas com as antecedentes e prepararão as futuras, constituindo um conjunto coerente, integradas no planeamento anual estabelecido para cada turma. Deverá ser ministrado por professores habilitados especìficamente, actuando segundo a orientação pedagógica, metodológica e técnica da Inspecção do Ensino de Educação Física, que procurará sempre nortear-se pela preocupação de a inserir no plano de acção do ciclo, sem perder de vista a sua integração no todo que é a Educação Física Juvenil.

Condicionamentos base

Para além das finalidades que caracterizam o ciclo preparatório do ensino secundário, duas coordenadas imediatas são condições a atender no estabelecimento dos programas de Educação Física: a idade biopsicológica do aluno e o seu grau de preparação anterior.

Dado que no ensino primário a educação física ainda não se encontra convenientemente estruturada, a preparação anterior da criança nesta matéria é, na maior parte dos casos, pràticamente inexistente quando da sua entrada no ciclo.

É evidente que, embora sem educação física organizada, a criança realizou intensa actividade física, traduzida essencialmente em movimentação desordenada.

Não obstante, ao estabelecer-se a programação para o 1.º ano, é realista considerar a inexistência referida.

A acção educativa a desenvolver através desta disciplina deve atender a que durante a sua permanência no ciclo as características da criança evoluem em função da idade. Por outro lado, também não se esquece que, por vezes, na mesma turma se encontram crianças de perfis vincadamente diferenciados, competindo ao professor, através da conveniente individualização do ensino, atingir o rendimento desejado.

A) Perfil das crianças dos 9/10 anos aos 12 anos

Grande infância

Sob o aspecto morfofuncional:

A estatura e o peso aumentam com regularidade.

Pela primeira vez o tórax apresenta predomínio sobre o abdómen.

As massas adiposas diminuem.

A força muscular não acompanha o grau de desenvolvimento e crescimento geral.

O tónus de atitude, sendo pouco desenvolvido, obriga a criança a solicitar um esforço estático importante para manter a atitude postural e origina atitudes viciosas.

O coração e os pulmões atingem pràticamente as proporções do adulto. Aumenta a resistência geral (resistência às doenças). No entanto a criança não pode ser considerada um «homem em ponto pequeno» porque:

Despende energias de modo pouco económico;

Se fatiga com facilidade perante o esforço longo e monótono.

Sob o aspecto psicomotor:

A criança apresenta já boa coordenação neuro-muscular. A habilidade motriz permite-lhe a automatização de muitos gestos, despertando-lhe o interesse em aprender movimentos novos.

A amplitude da atenção aumentou consideràvelmente.

A criança pode ouvir e seguir mais indicações, revelando uma maior capacidade de memorização. A par deste aspecto o espírito crítico e de observação facilitam-lhe a aprendizagem de uma motricidade com incidência prática.

Revela melhoria no tempo de reacção.

O gosto pela aventura e pelas actividades «excitantes» apresenta grande intensidade. É a idade da exploração.

Algumas crianças menos dotadas sentem-se desencorajadas em virtude de dificuldades motoras e desistem de tentar quando não são capazes de fazer.

Sob o aspecto sociológico:

Os instintos gregários começam a impor-se. Desenvolve-se a lealdade ao grupo e à equipa. E a idade do espírito associativo.

Manifesta-se um interesse crescente pelas actividades competitivas e, através destas, o respeito pelas normas do grupo.

A diferença de interesses entre os sexos é agora evidente. As tendências são divergentes e surgem os primeiros antagonismos.

Consequências

Os exercícios, utilizados principalmente sob a forma de actividades atraentes, devem fazer apelo à precisão, à velocidade, à descontracção e à prontidão de execução.

É importante dar atenção aos hábitos posturais. Os desvios de morfologia normal exigem intervenção correspondente à perturbação.

Depois dos 9 anos as más atitudes escolióticas e cifóticas surgem e devem ser corrigidas.

Deve visar-se o desenvolvimento dos músculos esqueléticos.

Têm importância nesta idade os exercícios de ritmo. As sessões de educação física deverão ser de duração curta (35 a 40 minutos) e terminar com exercícios de intensidade fraca que permitam à criança recuperar.

Podem incluir-se actividades que exijam elevado grau de desembaraço; testes de avaliação são um meio bem recebido, porquanto mostram os progressos que cada um tem feito.

Os jogos de rápida movimentação, que solicitam decisões rápidas e precisas, estão ao alcance das aptidões e capacidade das crianças destas idades.

Os jogos de equipa, as actividades colectivas, a cooperação no grupo de jogo, são manifestações que satisfazem os interesses destas idades.

Devem utilizar-se os jogos de equipa e os testes (percursos) que incluam competição. A experiência de arbitragem é importante pelo que implica de respeito a regras aceites e que se fazem observar.

Algumas actividades de carácter utilitário podem ser comuns aos dois sexos. Outras, como as que solicitam a força e a destreza, são específicas do sexo masculino.

O campismo, o montanhismo e outras actividades de ar livre constituem excelentes meios de satisfação dos instintos de exploração.

Precauções

A Educação Física deverá utilizar todas as possibilidades do meio natural: campo, rios, matas, ar, montanha, isto é, o ar livre sob todas as formas.

Evitar a monotonia na apresentação e desenvolvimento dos exercícios.

Não pretender, especialmente, aumentar a resistência funcional. É preciso não esquecer que a repetição abusiva de exercícios, mesmo moderados, pode criar situações de fadiga crónica; a criança nestas idades continua frágil.

Excluir os exercícios que provoquem desenvolvimento muscular excessivo e prematuro.

Seleccionar as crianças por grupos anátomo-fisiológicos homogéneos.

Não desprezar a importância da demonstração. A aquisição do gesto pela observação prende e facilita a compreensão e apreensão dos tempos sucessivos do exercício a realizar.

B) Perfil das crianças dos 12 aos 14 anos - Pré-puberdade

O perfil das crianças desta idade sofre profundas alterações em relação ao período anterior (9/10-12 anos), implicando, naturalmente, diferentes formas de actuação pedagógica.

Sob o aspecto morfofuncional:

Ao entrar na pré-puberdade desenvolvem-se na criança zonas de menor resistência ao nível físico (morfológico e funcional), psicomotor e social.

É uma idade «frágil», de contradições e de crises.

O desenvolvimento estatural é mais acentuado do que o aumento de peso. É o período das deformações esqueléticas.

Sob o ponto de vista funcional, o despertar da função sexual provoca um disfuncionamento neurovegetativo que tem como consequência uma diminuição da resistência. É o período dos grandes acessos de fadiga, aparentemente inexplicáveis.

Sob o aspecto psicológico:

Notam-se crises de ansiedade exacerbadas pela irritação sexual. Cria-se um compromisso de conciliação difícil entre o desejo sexual, a consciência moral e o preconceito social. Todas estas características determinam uma grande imaturidade e desequilíbrio emocional.

Revela-se a grande admiração pelo «herói», pelo «ídolo». Aumenta o interesse pela aparência pessoal.

Surgem oscilações entre o exibicionismo e o pudor, entre a agressividade e a inibição, entre o entusiasmo e a depressão.

Desenvolve-se o espírito de crítica.

Sob aspecto sociológico:

Manifesta-se a escolha do amigo, do confidente, do pequeno grupo.

Verifica-se a tendência para a afirmação, através do êxito.

A criança não suporta determinados contrôles. Se estes não se realizam discretamente são de prever reacções de oposição.

Consequências

Insitir nos hábitos posturais e no trabalho de musculação, embora condicionado à evolução morfológica.

O enfraquecimento da resistência associado às exigências do trabalho escolar deverá influenciar o ritmo das sessões. Evitar exercícios de fundo, corridas prolongadas. O aspecto quantitativo, predominante nas lições da idade precedente, dará lugar ao aspecto qualitativo favorável a uma melhor adaptação motriz.

Os aspectos correctivos, nomeadamente de musculação dorsal, devem merecer grande atenção em virtude do crescimento rápido da coluna vertebral.

Deve utilizar-se frequentemente trabalho de características colectivas.

Deve possibilitar-se a participação das crianças em actividades novas (destrezas mais difíceis) e intensificar a realização de jogos que solicitem a audácia e o risco.

Devem eliminar-se os perigos de uma competição levada a extremos. É neste período de fragilidade orgânica e psíquica que a criança reinvindica a participação em actividades desportivas. Com efeito, o desporto satisfaz a auto-afirmação e constitui um meio de canalização da agressividade. Ajuda o reencontro do equilíbrio emocional. No entanto, a criança tem muitas vezes a tendência para se entregar excessivamente à prática desportiva, procurando no êxito um meio de domínio, razão por que a competição apresenta vários perigos para esta idade.

Entre as preocupações pedagógicas a encarar no que se refere à competição, deve atender-se:

Ao progresso individual;

À necessidade das regras do jogo (à qual o adulto também se subordina);

À colaboração da criança com o professor na organização e direcção das actividades. Na verdade, estando ela ansiosa por se tornar adulta e achando-se por esse motivo sujeita a inconstância psíquica, a estabilidade pode ser provocada dando-lhe maiores responsabilidades. Nomear «capitães», «chefes de grupo», «árbitros», etc., representa óptima resolução.

A motricidade global e espontânea deve gerar a preocupação de independência segmentar e de motricidade controlada, do que resulta o carácter mais analítico de determinadas formas de acção no ensino destas idades.

Precauções

Estar atento aos sintomas de fadiga.

Procurar que a lição seja estimulante e não fatigante. Evitar a monotonia na apresentação e no desenvolvimento das actividades.

Não pretender especialmente desenvolver a força muscular nem a resistência funcional.

Ter como preocupação permanente o aperfeiçoamento da coordenação motriz.

Ter ainda outra preocupação (maior neste escalão etário) - ser um exemplo.

Meios

Para além de todos os meios gerais inerentes a qualquer acção educativa, a Educação Física utiliza neste escalão etário, além dos agentes físicos naturais, os seguintes, que lhe são específicos: a ginástica, o jogo e a iniciação desportiva.

Nas práticas gimnodesportivas de natureza circum-escolar devem incluir-se, ainda, as actividades de campo. Todo o procedimento a adoptar estará sempre condicionado por preocupações formativas. No entanto, há que admitir aspectos complementares inerentes a cada um dos meios;

Ginástica - objectivo essencialmente morfofuncional;

Jogo - objectivo essencialmente psicossocial;

Iniciação desportiva - objectivo essencialmente psicossocial e de aplicação (criação de meio e hábitos de ocupação sadia dos tempos livres).

A ginástica, actividade analítica por excelência na sua forma, realiza-se através de exercícios cuja execução visa objectivos de natureza anátomo-fisiológica.

Para os alunos que, por desvios de natureza anátomo-mecânica, ou até funcional, não possam ser integrados nas classes normais, devem ser criadas classes especiais, onde serão agrupados para a execução de determinados exercícios de efeitos especialmente correctivos (educação física especial).

O jogo constitui uma actividade sincrética de efeitos generalizados e de grande significado pedagógico, que visa:

Proporcionar às crianças períodos de êxito, que contribuem para a expansão e equilíbrio da sua personalidade nascente;

Fornecer ao professor preciosos elementos de apreciação e correcção de comportamento;

Representar uma escola de esforço;

Permitir uma compensação ao sedentarismo e uma expansão à necessidade de movimento;

Favorecer a aprendizagem de destrezas muito úteis à preparação para a vida;

Permitir a ordem lúdica (pela lei do jogo), veículo condutor para a ordem moral (senso moral);

Canalizar educativamente o instinto de luta;

Desenvolver o espírito de grupo.

A iniciação desportiva é uma actividade que se caracteriza pela simplificação- da técnica e táctica das diversas modalidades desportivas, bem como das suas exigências físicas. Deve ser orientada para o aperfeiçoamento dos gestos e o estudo dos «estilos» e para a obtenção da precisão e facilidade do movimento e da participação nas jogadas colectivas.

As excursões no campo, o campismo e outras actividades de ar livre correspondem às formas mais primitivas e naturais de educação física. Os estímulos surgidos na sua prática agem benèficamente, não só sob o aspecto físico, mas também pelo apelo frequente ao raciocínio e à decisão decorrentes da necessidade de resolver situações diversas e inesperadas em contacto com a natureza, pela recuperação de hábitos que a vida citadina quase faz desaparecer, pelas manifestações de sensibilidade artística que os motivos de paisagem proporcionam e pelo fortalecimento do amor à terra natal.

Esquematização programática

Ginástica

São aconselháveis em todas as sessões:

Exercícios que desenvolvam a disciplina e a atenção;

Exercícios que concorram para a obtenção da boa atitude corporal e sua conservação;

Exercícios destinados ao desenvolvimento da coordenação neuro-muscular;

Exercícios de desenvolvimento da flexibilização;

Exercícios de suspensão (em que o apoio é dado pelos braços e, ainda, por qualquer outra parte do corpo);

Exercícios de equilíbrio (no solo ou a pequena altura);

Exercícios de saltos simples (no solo ou nos aparelhos);

Exercícios de destreza (no solo ou nos aparelhos).

O emprego frequente do material didáctico concorre para tornar o ensino mais interessante e atraente, facilita a acção correctiva da ginástica e permite uma programação mais variada e rica e uma progressão mais fácil.

São de eliminar:

Os exercícios que exijam exagerado esforço muscular; Os exercícios de exagerada flexibilidade articular.

Jogos

O critério adoptado para a escolha dos jogos é função das características e necessidades psicossociais das crianças destas idades.

Cabe aqui fazer uma breve teorização especìficamente adaptada às características do jogo nestas idades, embora relacionada com os perfis psicomotores já anteriormente referidos.

9 anos:

A criança encontra-se em desespero de causa, passa de vez em quando para o grupo dos da sua idade e dos mais jovens e procura com estes organizar os jogos dos mais velhos.

Varia ainda muito de distracção, razão por que nesta idade o jogo fàcilmente degenera em desordem.

10/11 anos:

A criança domina o próprio corpo, refreia mais ou menos o seu ímpeto, aprende com dificuldade a calar-se e sobretudo aprende a levar em consideração o colega. Surge o domínio de si, reprime o egocentrismo e devido a esse duplo progresso pode tomar parte no grande jogo colectivo.

Atinge a fase do jogo verdadeiramente cooperativo, onde o trabalho dividido lhe dá papel determinado.

11/12 anos:

À medida que se afirma o seu valor físico, intelectual e moral, a criança sobe de cotação no meio dos companheiros. A idade confere-lhe uma superioridade nova.

Aos 12 anos o jogo social atinge o auge.

13/14 anos:

O jogo perde algo do seu interesse à medida que aquela superioridade, tornada quase institucional, já não perturba.

As alegrias do poder e as pequenas vantagens de uma autoridade já aceite perdem o sabor quando, nas proximidades dos 13 ou 14 anos, a criança volta a olhar os que estão acima dela, os mais velhos.

Como consequência teremos:

10/11 anos: conquista da posição social - jogo colectivo ascendente;

11/12 anos: idade do jogo - jogo colectivo de cooperação;

13/14 anos: impaciência - jogo de evasão.

Iniciação desportiva

As incidências psicomotoras referidas acerca dos jogos mantêm a sua dimensão na iniciação desportiva, que para a criança é o jogo do adulto, embora simplificado.

Considerando que a organização da vida colectiva não reserva frequentemente às crianças suficiência de tempo, de espaço e de meios para se movimentarem, importa que se preveja, na educação da juventude, uma actividade física rica e variada.

O atletismo, os desportos colectivos, e de ar livre, quer como actividades escolares, quer como ocupação dos tempos livres são oportunidades de repouso activo e de benefício intelectual e moral.

A intensão de esforço, voluntário e desinteressadamente adquirida e conservada, constitui sólido suporte sobre o qual a criança ao atingir a maioridade assegurará, de acordo com as preferências, aptidões e hábitos, a diversidade dos seus ócios de adulto.

1.º ano

Atletismo (a):

Corridas de velocidade até 40 m;

Corrida de resistência até 500 m (tempo nunca inferior a 2 minutos e 30 segundos);

Percursos de orientação;

Corridas de corta-mato;

Corridas de estafetas;

Passagem de barreiras;

Salto em comprimento sem e com corrida preparatória;

Salto em altura;

Lançamento de peso de 2 kg (com uma e outra mão);

Lançamento de bola de ténis - preparatório para o lançamento de dardo (com uma e outra mão).

Natação (b):

Exercícios e jogos recreativos na água;

Aprendizagem da flutualidade, de frente e de costas;

Saltos para a água à vontade (da altura máxima de 1 m);

Aprendizagem dos estilos bruços e crawl.

Andebol:

Andebol simplificado.

Basquetebol:

Basquetebol simplificado.

Voleibol:

Voleibol simplificado (3 contra 3).

2.º ano

Atletismo (a):

Corridas de velocidade, até 50 m;

Corridas de resistência até 600 m (tempo nunca inferior a 3 minutos);

Percursos de orientação;

Corridas de corta-mato;

Corridas de estafetas;

Corridas de barreiras;

Salto em comprimento com corrida preparatória;

Salto em altura;

Lançamento de peso de 3 kg (com uma e outra mão);

Lançamento de bola de hóquei (com uma e outra mão);

Lançamento de slung-ball de 0,800 kg (com uma e outra mão).

Natação (b):

Aprendizagem do estilo de costas;

Aperfeiçoamento dos estilos bruços e crawl;

Saltos para a água;

Exercícios de salvamento.

Andebol:

Miniandebol.

Basquetebol:

Minibasquetebol.

Voleibol:

Voleibol.

Educação Física

(Sexo feminino)

Sendo a educação física uma das poucas matérias escolares em que há uma orientação condicionada ao sexo, são apresentadas, no programa do ciclo preparatório do ensino secundário, duas versões sobre esta disciplina. No entanto, há muitas considerações mencionadas na versão masculina que correspondem perfeitamente tanto a alunos como a alunas. Aconselha-se, portanto, a leitura da parte generalizada daquela versão sobre o alcance educativo do movimento e sobre o perfil neuropsicomotor do escalão etário abrangido por este grau de ensino.

I) Objectivos

A educação pelo movimento orientada numa estreita relação com as restantes disciplinas deverá visar o despertar das capacidades essenciais para uma boa integração na vida futura.

Nesta linha de pensamento e não esquecendo particularmente as condições em que vive a criança actual, com influência decisiva nas correntes pedagógicas modernas, a educação física deverá desenvolver certas capacidades psicomotoras e atitudes mentais necessárias ao domínio das dificuldades reais da vida adulta no trabalho, nos tempos livres e na conduta social.

II) Considerações gerais

As raparigas que ingressam no ciclo preparatório têm normalmente 10-12 anos; consequentemente, estão no período de formação que precede a puberdade. Caracteriza-se esta fase da vida por um grande gosto pela movimentação e pelo anseio de perfeição na execução.

Entre nós, como em muitos outros países, a criança não tem, de facto, uma educação física sistematizada na sua passagem pela escola primária. No entanto, o seu organismo, em constante modificação, ainda pode ser influenciado em sentido positivo. Esta labilidade infantil fará que a criança sofra, mais do que em qualquer idade posterior, com a falta de estímulo funcional adequado, dando origem fàcilmente a deformações orgânicas, especialmente localizadas no tronco, e algumas vezes a perturbações de ordem emocional, a partir da puberdade.

De certo no ciclo preparatório serão incluídas tanto crianças de 9 anos de idade como de 13 e até, eventualmente, de 14 anos. Não havendo uma possibilidade real de completa individualização, tem esta minoria de seguir o ensino em geral.

III) Finalidade da disciplina de Educação Física

A educação física, utilizando como meio específico o movimento e considerando a unidade individual do ser humano, procura:

1.

O desenvolvimento das capacidades psicomotoras, nomeadamente a estruturação perceptiva (do esquema corporal e espacial e temporal), o ajustamento postural e o ajustamento motor (habilidade manual, coordenação dinâmica geral e adaptação a «praxis» variadas).

2.

A preparação para a vida social, solicitando, através da dinâmica de grupo, comportamentos de iniciativa, responsabilidade, colaboração e aceitação dos outros.

3.

A correcção das perturbações de relação entre os diferentes segmentos corporais (atitude estática e atitude dinâmica), conforme os elementos recolhidos em despistagem feita no início do ano lectivo.

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